A reportagem do Atento News chegou a Rio Bonito do Iguaçu por volta de 0h30.
Nem parecia que estávamos chegando em uma cidade, porque por aqui está tudo escuro. Não demorou muito para perceber o reflexo das luzes das viaturas que iam e vinham pela rodovia de entrada se espalhando em pedaços de estruturas metálicas retorcidas como folhas de papel. Em vários pontos, era possível ver coberturas inteiras arrancadas e outras parcialmente, como a de um posto de combustíveis que cedeu sobre dois carros.
Assista a reportagem especial:
Com a cidade toda escura, ainda era difícil se orientar por onde seguir. A então pacata Rio Bonito do Iguaçu, que segundo o IBGE tem 13.929 habitantes e 681 km², está irreconhecível.
Ao nos deslocarmos para a área central, onde os estragos pareciam ser mais intensos, encontramos várias pessoas ao redor de viaturas do Corpo de Bombeiros.
Ali, havia sido montado o primeiro ponto de comando das forças de resgate, com o objetivo de concentrar informações e organizar os atendimentos.

Pouco tempo depois, a estratégia mudou. O comando optou por transferir o centro das operações para o pátio do mesmo posto de combustíveis citado anteriormente, parcialmente destruído.
A explicação foi simples: o novo local oferecia mais espaço para abrigar as viaturas que irão continuar chegando de outras cidade.
Por volta das 2h50 da manhã, o capitão Joel da Silva Luiz Filho, comandante do 2º Subgrupamento de Bombeiros de Laranjeiras do Sul, porta-voz nesse primeiro momento de trabalho na cidade, concedeu uma entrevista coletiva e confirmou quatro mortes após a passagem do tornado.
O número corrigiu informações anteriores, divulgadas pelo governo do estado, às 23h43, que citavam cinco óbitos.
Segundo o comandante, 432 pessoas foram atendidas no município de Laranjeiras do Sul, que recebeu a maior parte das vítimas transferidas de Rio Bonito do Iguaçu.
“Havia um número de cinco óbitos divulgado pelo governo no fim da noite de ontem. Como fica essa questão dos números de óbitos até o momento?”, perguntou a reportagem do Atento News.
O comandante respondeu que houve uma divergência de informações:
“Como estavam tendo atendimentos aqui em Rio Bonito do Iguaçu e foram concentrados nos hospitais de Laranjeiras, as vítimas mais graves foram contabilizadas, a princípio, como o mesmo óbito nos dois locais. Mas a informação oficial repassada pelo secretário de Saúde de Laranjeiras do Sul é que são quatro óbitos.”
“Tivemos nove cirurgias, quatro óbitos e duas vítimas em estado instável na UTI. Cerca de 70% da área urbana foi atingida”, afirmou o capitão Joel da Silva Luiz Filho, comandante do 2º Subgrupamento de Bombeiros do 12º Grupamento de Bombeiros de Laranjeiras do Sul.
Ele explicou que foram mobilizadas 30 ambulâncias, 100 profissionais de saúde e 20 viaturas do Corpo de Bombeiros, com aproximadamente 35 bombeiros militares.
Reforços chegaram de Curitiba, Cascavel e Cianorte, com equipamentos e cães de busca.
O comandante também confirmou que, no momento da coletiva, não havia registro de desaparecidos, mas que, ao amanhecer, começaria uma busca mais detalhada entre os escombros para garantir que não houvesse vítimas soterradas.
“Estamos concentrando todas as forças de segurança e voluntários. A cidade está sem energia, e há muitos postes e fiações caídas. O ideal é que quem queira ajudar se cadastre aqui no ponto de comando, para que possamos coordenar as ações de forma segura.”
Durante a cobertura, a reportagem do Atento News conversou com Gerson Luis Wenckel, comerciante. Usando uma lanterna de cabeça, daquelas utilizadas normalmente em pescarias, para se locomover em meio aos escombros e à escuridão, ele contou que viu a própria casa e o comércio serem destruídos.
“Eu cheguei em casa por volta das seis e quinze. Quando o tempo se armou, entrei com minha mãe e meu filho dentro do banheiro, que é no meio da casa. Foi o único canto que sobrou. O resto acabou com tudo. No bairro Vista Alegre, onde eu moro, arrancou prédio inteiro, está tudo no chão. É cena de guerra.”
As ruas estavam cobertas de pedaços de ferro e pedaços de estruturas metálicas.
Um carro tombado havia sido atingido por das estruturas que servia de cobertura de um barracão, e nas avenidas centrais, carretas e ônibus estavam virados.
Hospitais da região, como no caso do Hospital São Vicente, em Guarapuava, emitiram alerta de capacidade máxima, pedindo que a população procure atendimento apenas em casos graves.
O comunicado dizia: “Cada minuto agora faz a diferença.”
Tornado confirmado
De acordo com o Simepar, o fenômeno que atingiu o município foi confirmado como um tornado de categoria F2, com ventos entre 180 e 250 km/h.
Há indícios de que, em alguns pontos da cidade, as rajadas ultrapassaram 250 km/h, o que elevaria a classificação para F3, um dos níveis mais severos da escala Fujita.
Ação do Governo do Estado
O governador Ratinho Junior se pronunciou oficialmente na noite de ontem (7), ao lado da cúpula da Defesa Civil, Corpo de Bombeiros e Polícia Militar.
Ele confirmou que o governo estadual montou uma força-tarefa com aeronaves, helicópteros e equipes especializadas de todo o Paraná para reforçar as ações em Rio Bonito do Iguaçu e cidades vizinhas.
“Infelizmente tivemos um tornado confirmado, com ventos que podem ter ultrapassado os 250 km/h.
As principais cidades atingidas foram Rio Bonito do Iguaçu e Candói, mas outras, como Guarapuava e municípios do entorno, também sofreram danos.
Estamos com toda a estrutura mobilizada para o resgate e o atendimento às vítimas.”
Segundo o governo, 11 unidades da corporação estão atuando na região, com 40 bombeiros designados diretamente para Rio Bonito do Iguaçu.
O trabalho, segundo a corporação, ocorre em sistema integrado, com apoio da Defesa Civil, Copel e Polícia Militar, e prioridade no resgate de vítimas, triagem hospitalar e remoção de desabrigados.
Enquanto isso, o Hospital São Vicente e unidades de saúde de Laranjeiras do Sul continuam recebendo vítimas.
Mais de 30 pacientes graves foram internados, 70 tiveram ferimentos leves e outros 15 com ferimentos moderados foram atendidos em diferentes cidades da região.
Por William Batista e Cleo Ferreira