A reportagem do Atento News visitou, na noite desta sexta-feira (14), o Circo Torricceli, instalado no Parque do Lago, em Guarapuava, desde 6 de agosto. Esta é a segunda passagem da companhia pela cidade. A primeira ocorreu em novembro do ano passado. Desta vez, a temporada segue até 7 de setembro, com um espetáculo que reúne números tradicionais de circo, atrações aéreas, equilíbrio, malabarismo, palhaços, dinossauros e o Globo da Morte. Por trás das apresentações está uma história de 28 anos, construída por uma família circense que mantém a tradição entre gerações e por artistas que escolheram o picadeiro como profissão.

Antes mesmo do início da apresentação, parte dessa rotina já pode ser observada.
Na entrada, os próprios integrantes da companhia se dividem em diferentes tarefas. Há quem esteja no recebimento dos ingressos, quem cuide dos preparativos para o espetáculo e quem circule entre palco, plateia e bastidores para deixar tudo pronto antes da abertura.
Uma movimentação aqui, outra ali. Figurinos, equipamentos e os últimos ajustes acontecem enquanto o público começa a ocupar os lugares.

Equilíbrio abre a apresentação
Na sessão acompanhada pelo Atento News nesta sexta-feira, a abertura ficou por conta de Polina Torricceli, nome artístico de Angela Carol. A artista iniciou o espetáculo equilibrando-se sobre uma bicicleta em uma corda e, na sequência, apresentou outras habilidades de equilíbrio.

Depois, o roteiro passou pelo humor e pela interação com a plateia.
Os palhaços entraram em cena e, em determinado momento, surgiu no picadeiro um carro amarelo apresentado, dentro da brincadeira, como um Camaro amarelo.
De Camaro, porém, tinha basicamente a cor.

O veículo usado na cena tinha aparência propositalmente improvisada, com panelas fazendo as vezes de faróis e luzes de velas. O estado do carro fazia parte da própria proposta cômica do número.
A apresentação não ficou restrita aos artistas. Crianças e até um adulto foram chamados ao picadeiro e participaram das brincadeiras com os palhaços.
Do malabarismo ao Globo da Morte
A noite seguiu com diferentes números circenses.
Houve malabarismo, apresentações de equilíbrio na corda e o Mundo dos Dinossauros, atração que leva ao picadeiro dinossauros de diferentes tamanhos e com movimentos. Entre eles está um T-Rex de nove metros.
Mais tarde, chegou um dos números de maior expectativa da noite: o Globo da Morte.

A apresentação começou com três motociclistas simultaneamente dentro da estrutura metálica. Na sequência, uma quarta motocicleta entrou no globo. O número terminou com quatro motos ao mesmo tempo, pilotadas por três homens e uma mulher.
O espetáculo visto nesta sexta-feira, no entanto, não representa uma sequência fixa que necessariamente será repetida nas demais sessões. O Circo Torricceli possui diferentes atrações e alterna os números apresentados.
O artista circense André Mira, que usa o nome artístico Chinchorito, explica que o repertório é organizado de acordo com cada apresentação.

“A gente tem várias atrações e todo dia a gente divide essas atrações. Então vai um dia diferente do outro para que as pessoas possam vir várias vezes.”
O horário e o perfil do público também entram nessa escolha.
Segundo André, uma sessão durante a tarde, por exemplo, costuma ter presença maior de crianças e pode ganhar características mais lúdicas. À noite, a companhia pode trabalhar com uma apresentação mais teatral.
“A gente vai adaptando com o público que está presente. E nisso a gente sempre tenta trazer a emoção. Por exemplo, com o Globo da Morte, tenta trazer adrenalina, tenta trazer o sorriso, tenta trazer a magia, vários sentimentos num espetáculo só.”
Tradição circense com recursos atuais
A proposta do Torricceli, segundo André, é manter atrações que fazem parte da tradição do circo e, ao mesmo tempo, utilizar recursos atuais de iluminação e som.
“O Circo Torricelli busca trazer um espetáculo cem por cento tradicional. A gente traz as atrações de circo que provavelmente você já viu quando era criança, com seus pais, com seus avós. Agora você tem a oportunidade de trazer seus filhos.”
A estrutura instalada em Guarapuava tem capacidade para cerca de 600 pessoas, com assentos elevados para melhorar a visualização do espetáculo, além de sistema de som e iluminação e praça de alimentação.
“A gente tenta resgatar o que tem de mais tradicional no circo e unir um pouco de tecnologia de som e luz de última geração para juntar o tradicional do circo, aquela emoção antiga, com a atualidade”, explica André.
Uma história que começou há 28 anos
O Circo Torricceli nasceu em Campinas, no interior de São Paulo, há 28 anos.
Antes de criarem a própria companhia, Elizabeth Guimarães e o marido, Jaime Benedito, que também atua como palhaço, já trabalhavam no meio circense.
Elizabeth conta que os dois faziam parte do circo da família dela. Em determinado momento, saíram e passaram a trabalhar em outra companhia. Mais tarde, decidiram montar o próprio circo.

“Nosso circo tem 28 anos. A gente começou bem pequenininho, meus filhos eram bem jovens ainda, agora já são mães, a outra vai ser avó. Então o circo é bem tradicional mesmo”, contou.
Segundo Elizabeth, o nome Torricceli também está ligado à história da família e vem de gerações anteriores. De origem italiana, a família mantém uma tradição circense que já chegou à sexta geração, com técnicas transmitidas de pais para filhos.
A maior parte da família permanece ligada ao circo. Ao longo dos anos, integrantes também passaram por experiências fora do Brasil. Alguns dos netos já viajaram para Europa, Ásia e América do Norte para participar de apresentações em circos estrangeiros e festivais. Atualmente, um deles está em turnê na Malásia, em um circo temático.
Integrantes da família Torricceli também já se apresentaram em espaços como a Pedreira Paulo Leminski e o Teatro Guaíra, além de terem participado de formação na Escola Nacional de Circo, no Rio de Janeiro.
No circo desde que nasceu
A transmissão dessa tradição entre gerações aparece na história de Nicolas Guimarães da Silva, de 14 anos.
No picadeiro, ele é Nicolas Torricceli.

Ao ser perguntado há quanto tempo vive no circo, ele resume a própria trajetória de uma maneira simples: tem 14 anos e está no circo há 14 anos.
Nicolas nasceu nesse ambiente e já participa de diferentes atrações. Faz trapézio voador, Homem-Pássaro, atua como aparador e também se apresenta no monociclo.
Mesmo tendo crescido no circo, ele destaca que aprender e aperfeiçoar os números depende de treinamento.
“Com treino e dedicação, essas coisas, você vai conseguindo melhorar o seu número. Você consegue aprender mais truques. Nunca vou me ver fora desse ambiente, porque essa aqui é minha casa. Eu nunca quero abandonar essa casa maravilhosa.”
Os planos para o futuro também permanecem ligados à atividade circense. Nicolas quer participar de festivais fora do país, continuar adquirindo experiência e, no futuro, transmitir o que aprendeu aos próprios filhos.
“Passar essa cultura adiante para os meus filhos que eu quero ter e seguir a vida com o circo”, disse.
O treinamento que o público não vê
Se o espetáculo dura algumas horas, a preparação de determinados números pode exigir muito mais tempo.
Polina Torricceli conta que o treinamento faz parte da rotina dos artistas e se intensifica principalmente antes da estreia de uma nova apresentação.
“A gente treina muito, porque a gente está passando dos limites todos os dias.”
Ela cita como exemplo os números realizados na corda.
“A menina que anda na corda bamba, ela tem que treinar cinco horas por dia e a gente treina muito até estrear.”

Depois que uma atração está pronta e entra definitivamente no espetáculo, a intensidade dos ensaios pode diminuir. Até chegar a esse ponto, no entanto, há repetição, erro e tentativa.
Polina resume esse processo ao falar das horas em que o picadeiro está vazio.
“Você vem aqui e fica ali, sofrendo, treinando, errando, errando, errando até acertar. Sem nenhum aplauso, para que um dia o teu número fique perfeito para você chegar e aí sim receber os aplausos do público.”
Para ela, ter facilidade para determinada atividade não elimina a necessidade de treinamento.
“O talento não vale de nada se você não tiver dedicação. Tem gente que tem talento, não se dedica, então não aprende mais nada.”
Uma nova geração dentro do picadeiro
A tradição de passar as técnicas entre as gerações permanece, mas a forma de aprender também mudou.
Polina conta que os mais jovens da família estão assumindo espaço no espetáculo e participam de números aéreos, malabarismo e acrobacias de solo.
A internet, segundo ela, ampliou as referências disponíveis para essa nova geração.
“Então o circo realmente é uma essência que passa de pai para filho. Mas agora os filhos estão aprendendo com o mundo inteiro, com os artistas do mundo inteiro.”
Na avaliação da artista, essa combinação entre o conhecimento transmitido dentro da família e o acesso ao trabalho de outros artistas permite desenvolver novos números.
“A gente está vendo números que dá para apresentar em qualquer lugar do mundo. Tem aqui no Torricceli.”
Entre as atrações destacadas por Polina estão uma bicicleta gigante e um número realizado em dupla no trapézio.
Aos 18 anos, João trocou a agricultura pelo circo
João Henrique, de 18 anos, é de Santa Catarina e está há oito meses no circo. Antes, trabalhava na agricultura com o pai. O contato com o picadeiro veio por meio dos tios, que são do circo e que ele costumava visitar durante as férias.

Depois de terminar a escola, decidiu seguir esse caminho. Hoje, interpreta o palhaço Cenoura e diz ter encontrado o que gosta de fazer.
“É a coisa que eu mais amo fazer. Ver o sorriso de uma criança não tem dinheiro que pague”, contou.
Sobre deixar o circo, João é direto: “Não tem nada que faça eu trocar isso.”
Quando o adulto também volta a ser criança
Para André Mira, a reação da plateia ajuda a explicar por que atrações tradicionais continuam encontrando público mesmo depois de tantas gerações.
“O legal do circo é que todo mundo reage igual a criança, dá um sorriso puro. Tudo aquilo que ela imagina se torna realidade em cima do palco e o adulto volta a ser criança.”

É também esse público de diferentes idades que Polina chama ao fazer um convite para a temporada em Guarapuava.
“Acho que a essência do circo é alegria. Passar alegria para as pessoas.”
Ela pede aos pais que levem os filhos, mas também faz o caminho inverso: sugere que os filhos levem ao circo os pais e avós que, anos atrás, fizeram o mesmo por eles.
“Não esqueça de convidar o seu papai, a sua mamãe, que quando você era pequenininho te levou pro circo. Não deixa eles em casa não. Pega pela mãozinha e vem assistir o Circo Torricelli para fazer o vovô e a vovó também voltarem a ser crianças.”
Circo está pela segunda vez em Guarapuava
Esta é a segunda passagem do Circo Torricceli por Guarapuava, que esteve na cidade em novembro do ano passado e retornou neste mês para uma nova temporada.
As apresentações começaram no último dia 6 e seguirão no Parque do Lago até 7 de setembro.
Além das atrações acompanhadas pelo Atento News nesta sexta-feira, o repertório informado pela companhia inclui trapézio voador, balé aéreo, mágicas e outros números.
Como as atrações são alternadas entre as sessões, o repertório pode variar de um dia para outro.
60 mil ingressos para crianças e ações sociais
Durante a temporada em Guarapuava, o Circo Torricceli informou que fará a distribuição de 60 mil ingressos gratuitos para crianças de até 12 anos.
Os ingressos serão entregues em escolas da rede municipal, comércios e bairros da cidade. Para utilizar o ingresso gratuito, a criança deverá estar acompanhada de um adulto pagante.
Também estão previstas ações socioculturais durante a passagem pela cidade.
Entre elas estão uma sessão de espetáculo para entidades do município, campanhas de arrecadação e uma apresentação inclusiva adaptada para pessoas com autismo e TDAH.
Segundo a companhia, as ações serão divulgadas pelos canais oficiais do circo.
Serviço
Circo Torricceli em Guarapuava
Local: Parque do Lago
Temporada: até 7 de setembro
Horários:
Segunda, quarta, quinta e sexta-feira: 20h30
Sábados, domingos e feriados: 15h, 17h30 e 20h30
Os ingressos podem ser adquiridos antecipadamente pelo site do Circo Torricceli.
Reportagem de William Batista, com colaboração de Cleo Ferreira