Ter celular aos 12 anos pode estar associado a problemas de autoestima e transtornos alimentares, aponta estudo

Pesquisa acompanhou cerca de 9 mil adolescentes nos Estados Unidos e identificou maior ocorrência de sintomas relacionados à alimentação e à percepção corporal entre aqueles que já tinham smartphone aos 12 anos.
Estudo encontrou associação entre possuir smartphone aos 12 anos e maior ocorrência de comportamentos alimentares inadequados e problemas relacionados à percepção corporal. Imagem ilustrativa. Foto: Ilustrativa
Estudo encontrou associação entre possuir smartphone aos 12 anos e maior ocorrência de comportamentos alimentares inadequados e problemas relacionados à percepção corporal. Imagem ilustrativa. Foto: Ilustrativa

Crianças que já possuem o próprio smartphone aos 12 anos podem apresentar maior risco de desenvolver comportamentos relacionados a transtornos alimentares e dificuldades com a própria imagem corporal. A associação foi identificada em um estudo publicado na revista científica JAMA Network Open, que acompanhou cerca de 9 mil adolescentes nos Estados Unidos entre os 12 e os 14 anos.

A pesquisa utilizou informações do Adolescent Brain Cognitive Development Study, um amplo estudo de longo prazo dedicado a acompanhar o desenvolvimento cerebral e a saúde de crianças e adolescentes norte-americanos.

Para chegar aos resultados, os pesquisadores consideraram se os participantes possuíam ou não um smartphone aos 12 anos e acompanharam a evolução deles nos anos seguintes. A análise também levou em conta sintomas anteriores de transtornos alimentares e diferentes fatores demográficos, familiares, de desenvolvimento e de saúde mental.

Entre os adolescentes que tinham smartphone aos 12 anos, o estudo identificou risco 67% maior de apresentar comportamentos alimentares considerados inadequados e aumento de 50% no risco de adotar comportamentos voltados a evitar o ganho de peso.

Entre as práticas analisadas estavam, por exemplo, consumir alimentos de baixa caloria ou realizar exercícios intensos com a intenção de controlar o peso. O estudo também encontrou, nesse grupo, aproximadamente o dobro do risco de sobrepeso ou obesidade.

Os pesquisadores, porém, fazem uma ressalva importante: os resultados mostram uma associação, e não uma relação comprovada de causa e efeito. Portanto, a pesquisa não permite concluir que o smartphone, por si só, provoque transtornos alimentares ou problemas relacionados à imagem corporal.

Redes sociais entram no debate

O estudo também analisou comportamentos associados ao uso dos aparelhos e das redes sociais. Entre os pontos observados estão a preocupação excessiva com alimentação e peso, percepção distorcida do próprio corpo, restrições alimentares e tentativas de compensar calorias ingeridas por meio de exercícios ou vômitos.

O momento em que os adolescentes receberam o primeiro celular também foi considerado pelos pesquisadores.

Os resultados se somam a outras pesquisas que têm investigado a relação entre redes sociais, saúde e comportamento alimentar. Uma análise publicada em 2023, reunindo 52 estudos e mais de 63 mil jovens de 16 países, encontrou associação entre o uso das plataformas e resultados negativos relacionados aos transtornos alimentares.

Outro estudo mencionado na pesquisa acompanhou adolescentes que inicialmente não possuíam smartphone ou celular. Depois que parte deles passou a ter o aparelho, os pesquisadores observaram maior risco de depressão, obesidade e sono insuficiente em comparação com aqueles que permaneceram sem esses dispositivos.

Comparações podem afetar a percepção do próprio corpo

A adolescência é um período marcado por mudanças físicas e emocionais e pela construção da própria identidade. Nesse processo, a forma como o jovem percebe o próprio corpo e se compara com outras pessoas pode ganhar maior importância.

Nas redes sociais, essas comparações podem se tornar mais frequentes. Crianças e adolescentes ficam expostos a imagens selecionadas, editadas e filtradas, o que pode criar referências pouco realistas de aparência.

Essa exposição pode favorecer a insatisfação com a própria imagem e afetar a autoestima. Esses fatores, por sua vez, podem estar relacionados ao desenvolvimento de comportamentos alimentares prejudiciais.

Por isso, especialistas destacam a importância de acompanhar não apenas quando crianças e adolescentes passam a ter um celular, mas também a forma como utilizam o aparelho e os conteúdos aos quais ficam expostos.

Quais sinais merecem atenção

Mudanças significativas na relação do adolescente com a comida, o peso ou a aparência podem servir de alerta para pais e responsáveis.

Entre os comportamentos que merecem atenção estão alterações importantes na quantidade de comida consumida, esconder alimentos, pular refeições, adotar dietas extremas, praticar exercícios de maneira compulsiva e falar repetidamente sobre peso ou aparência.

Alterações de humor relacionadas à alimentação ou à balança também podem indicar que algo precisa ser observado com mais cuidado.

A presença de um desses sinais, isoladamente, não significa que o adolescente tenha um transtorno alimentar. A identificação de um problema depende de avaliação profissional.

Já situações como desmaios, dor no peito, batimentos cardíacos acelerados ou irregulares, tontura intensa, vômito com sangue ou sinais de desidratação grave exigem atendimento médico urgente.

Fonte: O Globo

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