Após saque de carga na BR-277, 30 indígenas são detidos na aldeia e recebem punições definidas por lideranças em Nova Laranjeiras

Segundo o vice-cacique da Terra Indígena Rio das Cobras, envolvidos deverão cumprir serviços comunitários e assinaram compromisso para não participar de novos saques; Polícia Civil mantém investigação sobre o caso.
Lideranças da Terra Indígena Rio das Cobras se manifestam após saque na BR-277
Lideranças da Terra Indígena Rio das Cobras se manifestam após saque na BR-277. Fotos: Reprodução/ Redes Sociais

Trinta indígenas apontados como envolvidos no saque de uma carga de eletrodomésticos na BR-277 estão detidos dentro da Terra Indígena Rio das Cobras, em Nova Laranjeiras, após uma decisão das próprias lideranças da comunidade. Segundo informações repassadas pelo vice-cacique Gilmar Correia à RPC, o grupo também deverá cumprir serviços comunitários e assinou um documento se comprometendo a não participar de novos saques. As medidas são um desdobramento do episódio registrado após um acidente com caminhões na última terça-feira (11), que terminou em confronto durante a atuação das forças de segurança e equipes de socorro.

Um vídeo que repercute nas redes sociais mostra representantes indígenas reunidos e, no mesmo local, pessoas que, segundo as informações divulgadas sobre a gravação, teriam participado da ação. Durante a manifestação, uma das lideranças afirma que o episódio foi discutido internamente e que os envolvidos reconheceram que agiram de forma errada. “Hoje, as pessoas que fizeram esse problema reconheceram os erros deles.”

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O representante explica que as lideranças haviam se comprometido anteriormente a discutir o caso e afirma que as providências foram tomadas após a reunião. “Como eu disse já a semana passada, o que a gente combinou já fiz. Tá aqui o resultado do nosso trabalho.”

Segundo a liderança, uma das medidas definidas é a realização de trabalhos em benefício da própria comunidade. “Eles vão pagar também um trabalho de serviço à comunidade, serviços comunitários aqui dentro do nosso território.”

Outro representante que aparece na gravação afirma que o caso foi discutido com as lideranças e o cacique para definir quais providências seriam adotadas. “A gente se reuniu junto com essas lideranças, junto com o cacique, pra gente discutir como a gente vai tomar as nossas devidas providências nesse caso.”

Ele também afirma que os envolvidos reconheceram a conduta. “Eles também entenderam que eles estavam errados.”

Vice-cacique relata detenção de 30 indígenas

Segundo informações da RPC, o vice-cacique Gilmar Correia informou que 30 indígenas envolvidos no episódio estão detidos dentro da aldeia. Ainda conforme o relato do vice-cacique, eles são do povo Kaingang e vivem na Terra Indígena Rio das Cobras.

Os envolvidos também teriam assinado um documento se comprometendo a não participar de novos saques. Entre as medidas definidas internamente estão serviços comunitários dentro da terra indígena e restrição na alimentação.

Até o momento, não há informações sobre uma data definida para a liberação do grupo.

De acordo com o vice-cacique, esta teria sido a primeira vez que as lideranças indígenas locais adotaram uma decisão desse tipo com o objetivo de tentar impedir novos saques na rodovia.

Uma reunião com representantes da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e da polícia está prevista para esta terça-feira (18). Conforme as informações divulgadas pela RPC, a Funai afirmou que acompanha o caso e que a Coordenação Regional de Guarapuava tem participado de reuniões com as lideranças indígenas, além de estar à disposição das autoridades policiais.

A Polícia Civil confirmou à emissora que participará da reunião e informou que a investigação continua.

Moradora indígena condena episódio e critica generalizações

Além da manifestação das lideranças, outro vídeo que repercute nas redes sociais apresenta o posicionamento de Elizandra Freitas, que se identifica como integrante do povo Kaingang e natural da Terra Indígena Rio das Cobras.

Na gravação, ela classifica a ação praticada por alguns moradores como lamentável. “Foi uma ação lamentável praticada por alguns moradores aqui da Terra Indígena de Rio das Cobras.”

Reprodução/ Redes Sociais

Elizandra afirma que, após a repercussão do episódio, a comunidade passou a receber críticas e comentários nas redes sociais. Ela contesta principalmente a generalização da conduta dos envolvidos para os demais moradores da terra indígena.

“É inaceitável que as pessoas generalizem os povos indígenas como um todo por causa dessa ação.”

No vídeo, ela ressalta que moradores da comunidade atuam profissionalmente em diferentes setores e que jovens indígenas também frequentam universidades. “Dentro do nosso território tem pessoas assim como eu, trabalhando na área da educação, na área da saúde, na Brigada Federal, nos frigoríficos que ficam a quilômetros do nosso território.”

Ela afirma ainda que decidiu se posicionar publicamente para deixar claro que não concorda com o ocorrido. “Porque a gente fica em silêncio, é a mesma coisa que compactuar com esse tipo de ação.”

Segundo Elizandra, a Terra Indígena Rio das Cobras possui mais de 18 mil hectares, reúne mais de mil famílias e tem uma população de aproximadamente 3 mil pessoas.

Saque ocorreu após acidente na BR-277

O caso que motivou as medidas internas ocorreu na terça-feira (11).

Segundo a Polícia Rodoviária Federal (PRF), um caminhão tombou em uma curva da BR-277, atravessou a pista e atingiu outro caminhão que seguia no sentido contrário. Um dos motoristas, de 44 anos, ficou preso na cabine.

Um dos veículos transportava eletrodomésticos. Conforme a PRF, enquanto o caminhoneiro ainda aguardava o resgate, indígenas moradores do entorno começaram a retirar produtos da carga.

A ocorrência evoluiu para um confronto durante a intervenção das forças de segurança. A PRF informou que policiais e socorristas foram ameaçados e atacados com pedras e pedaços de madeira. Mais de 40 policiais militares foram mobilizados, além das equipes da PRF.

O motorista que estava preso na cabine foi retirado com uma fratura exposta na perna direita e encaminhado em estado grave para atendimento hospitalar em Guarapuava.

Um policial militar de 33 anos também ficou ferido e foi levado ao Instituto São José, em Laranjeiras do Sul. Uma técnica de enfermagem de 43 anos precisou de atendimento após apresentar estresse diante da situação.

A ocorrência deixou a BR-277 interditada durante várias horas. As filas chegaram a aproximadamente 13 quilômetros, considerando os dois sentidos, e a rodovia foi liberada por volta das 21h30.

Polícia Civil continua investigando

No dia seguinte ao episódio, quarta-feira (12), a Polícia Civil do Paraná informou que abriu inquérito para investigar inicialmente os crimes de roubo, ameaça e resistência.

A corporação informou que buscaria imagens de videomonitoramento, aguardaria resultados de perícias e ouviria os policiais que participaram do atendimento.

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