O Rio Iguaçu chegou a 5,710 metros às 17h desta sexta-feira (11), em União da Vitória, acima da cota de emergência, estabelecida em 5,50 metros. Naquele momento, o monitoramento indicava que o nível subia cerca de 3,5 centímetros por hora. Embora a situação atual ainda esteja distante das maiores enchentes já registradas no município, a elevação volta a colocar em evidência uma característica histórica da cidade: por que União da Vitória é tão vulnerável aos transbordamentos do Iguaçu?
A resposta não está em um único fator. Características do relevo, a altitude da região, as muitas curvas feitas pelo rio e o volume de água que chega de outros pontos da bacia ajudam a explicar por que o município acompanha tão de perto o comportamento do Iguaçu durante períodos de chuva.
Rio está acima da cota de emergência
Na atualização das 17h, o sistema de monitoramento apontava, além dos 5,710 metros, vazão de 1.810 metros cúbicos por segundo.
Entre 16h e 17h, foram registrados 13 milímetros de chuva, enquanto o acumulado apresentado no painel chegava a 65 milímetros.
A velocidade de elevação também chamou atenção. Às 14h, quando o rio estava em 5,612 metros, a tendência indicada era de aproximadamente 1,2 centímetro de alta por hora. Às 17h, o painel passou a indicar cerca de 3,5 centímetros por hora.
Na atualização mais recente apresentada, o sistema informava ainda que não havia previsão disponível para as próximas 48 horas devido a uma inconsistência na previsão da Copel e que aguardava nova atualização.
Durante a tarde desta sexta-feira, a reportagem também recebeu informações de ruas alagadas em União da Vitória por causa das chuvas. Esses registros, no entanto, não devem ser confundidos com um eventual transbordamento do Rio Iguaçu.
Por que União da Vitória tem histórico de transbordamentos?
O Iguaçu percorre 1.320 quilômetros pelo Paraná, de leste a oeste. O rio nasce na região de Curitiba e segue até Foz do Iguaçu.
Ao longo desse percurso, entretanto, as características do terreno mudam.
Em reportagem veiculada pela RPC em 2023, o professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR) Francisco Mendonça explicou alguns dos fatores que tornam determinadas áreas mais suscetíveis a alagamentos e inundações.
Um deles é justamente o relevo.
Na região do Médio Iguaçu, União da Vitória está em uma área mais baixa e plana. Enquanto Curitiba está a mais de 900 metros acima do nível do mar, União da Vitória fica a aproximadamente 765 metros.
Áreas mais planas favorecem uma menor velocidade de escoamento das águas quando comparadas a trechos mais inclinados do relevo.
Curvas do Iguaçu ajudam a entender a dinâmica
Outro ponto importante está no próprio desenho do rio.
Na região de União da Vitória, o Iguaçu segue por cerca de 27 quilômetros em um percurso marcado por curvas, passa por um estreitamento e depois chega às corredeiras em Porto Vitória.
Essa sinuosidade, associada ao terreno mais plano, interfere na velocidade da água.
Segundo a explicação apresentada por Francisco Mendonça na reportagem da RPC, nas curvas o fluxo perde velocidade e ocorre maior deposição de materiais transportados pela água.
Com o acúmulo de sedimentos e outros materiais, determinados pontos podem perder profundidade, favorecendo o espalhamento da água pelas áreas próximas quando há grande aumento do volume do rio.
É, portanto, uma combinação de características: terreno mais baixo e plano, associado a um rio bastante sinuoso.
Chuva em outros lugares também interfere no nível
Outro aspecto importante é que não é necessário que toda a chuva responsável pela elevação do Iguaçu caia diretamente sobre União da Vitória.
O município recebe a água que percorre diferentes pontos da bacia.
Conforme explicado na reportagem da RPC de 2023, os cursos d’água que formam o Iguaçu recebem água de áreas da Serra do Mar, onde são registrados elevados volumes de precipitação.
Ao longo do caminho, outros afluentes também contribuem para aumentar o volume.
Isso ajuda a explicar por que o nível pode continuar subindo mesmo quando a intensidade da chuva diminui em determinado ponto.
Vegetação e ocupação do solo também têm influência
A forma como o solo recebe a água é outro elemento dessa dinâmica.
A vegetação contribui para que parte da chuva infiltre no terreno e também ajuda a reter sedimentos que poderiam chegar aos rios.
De acordo com a explicação apresentada por Francisco Mendonça, a retirada da vegetação reduz essa capacidade natural de infiltração. A impermeabilização provocada por asfalto, concreto e construções também dificulta a entrada da água no solo.
Quando a infiltração diminui, uma quantidade maior de água permanece na superfície e segue para os cursos d’água.
Por que o rio pode continuar alto mesmo depois da chuva?
O comportamento do solo também ajuda a responder outra dúvida comum durante períodos de elevação do Iguaçu: por que o nível não baixa imediatamente quando para de chover?
Depois de muita chuva, o solo fica encharcado e continua liberando gradualmente a água armazenada.
Na explicação apresentada pelo professor da UFPR, esse processo contribui para que a água continue chegando aos canais dos rios mesmo depois da redução da chuva.
Por isso, a descida das águas pode ocorrer de maneira mais lenta do que a subida.
Histórico mostra grandes enchentes
União da Vitória já enfrentou níveis muito superiores ao registrado nesta sexta-feira.
Segundo o histórico apresentado pelo sistema de monitoramento, a maior marca exibida é da enchente de 1983, quando o Rio Iguaçu chegou a 10,42 metros. Aproximadamente 70% da cidade foi alagada naquela ocasião.
Entre os níveis históricos apresentados pelo monitoramento estão:
- 1983: 10,42 metros;
- 1992: 8,90 metros;
- 2023: 8,37 metros;
- 1935: 8,16 metros;
- 2014: 8,12 metros;
- 2019: 7,82 metros;
- 17h desta sexta-feira (11): 5,710 metros.
Em 2014, quando o nível passou dos 8 metros, cerca de 40% da cidade ficou sob a água. Em 2023, aproximadamente 40% da área urbana de União da Vitória ficou inundada.
Os números ajudam a colocar o momento atual em perspectiva: o Iguaçu está em nível de emergência e em elevação, mas ainda distante das marcas alcançadas nas grandes enchentes históricas da cidade.
Defesa Civil mantém preparação diante da elevação
Mais cedo nesta sexta-feira, a Defesa Civil Estadual informou que trabalhava com a estimativa de que o Rio Iguaçu pudesse chegar a 6,5 metros até o dia 17. Nesse cenário, aproximadamente 300 residências poderiam ser afetadas.
Como medida preventiva, dois espaços estavam sendo preparados para funcionar como abrigos: o Ginásio Benedito Albino, no bairro Bento Munhoz da Rocha, e o Ginásio da Paróquia Nossa Senhora do Rocio, no bairro Rocio. Cada local tem capacidade para 250 pessoas.
Também foram disponibilizados dez caminhões para auxiliar famílias na retirada de móveis e outros pertences. A Defesa Civil Estadual informou ainda que encaminharia preventivamente ao município 250 colchões e 600 cestas básicas, para armazenamento no Corpo de Bombeiros.
Até as 22h de quinta-feira (10), segundo a Prefeitura, dez famílias haviam sido retiradas com auxílio da Defesa Civil e uma família estava em abrigo público.
O acompanhamento continua especialmente importante porque o comportamento do Iguaçu depende não apenas da chuva que cai sobre União da Vitória, mas de toda uma combinação de fatores ao longo da bacia.
Para moradores de áreas de risco que precisem retirar preventivamente seus pertences, o contato informado pela Defesa Civil de União da Vitória é (42) 92002-6142.