Uma conversa entre dois amigos, na véspera de uma morte inesperada, acabou dando nome a uma história que havia começado a ser escrita anos antes. O escritor Jhames Fernandes Camargo, de 33 anos, natural de Irati e morador do Bairro Lagoa, lançou no dia 19 de setembro, na Casa da Cultura do município, o primeiro livro, “Ainda Escreverei Um Livro Sobre Nós”. A obra mistura ficção e experiências pessoais para revisitar a infância e a adolescência de quatro amigos em um bairro periférico, mas carrega, por trás das páginas, uma história real marcada pela amizade, pelo reencontro e pelo luto.
Jhames escreve desde criança. O interesse nasceu dentro de casa, ao ter contato com os cadernos em que o pai escrevia as próprias poesias.
“Eu escrevo desde criança, quando eu lia os cadernos de poesias autorais de meu pai. Eu queria ser igual a ele. E fui escrevendo”, conta.
Com o passar dos anos, a escrita ganhou mais espaço em sua vida. Há cerca de dois anos, ele começou a trabalhar em um manuscrito sobre as lembranças da infância, os amigos e o lugar onde cresceu. O Bairro Lagoa, em Irati, tornou-se o cenário da história.
Naquele momento, porém, o projeto ainda não tinha a forma que ganharia mais tarde. O título não estava definido e parte dos personagens ainda estava em construção.

Um reencontro durante um momento difícil
No fim de 2024, a vida de Jhames também passou por uma mudança fora da literatura. Ele descobriu um câncer no rim e publicou nas redes sociais sobre a doença.
A postagem provocou um reencontro. Um amigo de infância, que já servia de inspiração para um dos personagens do manuscrito, entrou em contato. Os dois não conversavam havia muitos anos.
A partir dali, retomaram a amizade.
“A gente voltou a conversar. A gente passou um ano conversando quase que diariamente”, relata.
Durante essas conversas, Jhames contou ao amigo sobre o manuscrito e sobre a intenção de transformar em livro as experiências que haviam compartilhado na infância.
No final de 2025, porém, o amigo foi assassinado.
A última conversa entre os dois havia acontecido apenas um dia antes. Nela, o amigo disse que gostaria de conhecer o filho de Jhames e perguntou como estava o manuscrito.
A resposta que Jhames enviou naquele momento acabaria se tornando definitiva para o projeto.
“Eu falei: ‘Eu ainda vou escrever um livro sobre nós’. Essa foi a última mensagem que a gente trocou.”

Da última mensagem nasceu o título
Depois do velório, Jhames voltou para casa e releu a conversa. Era madrugada quando decidiu sentar novamente para escrever.
Naquela noite nasceu o prefácio da obra. A última mensagem enviada ao amigo também passou a ser o título: “Ainda Escreverei Um Livro Sobre Nós”.
“Era uma promessa que eu fiz a ele. Não consegui concluir com ele em vida, mas, graças a Deus, consegui concluir agora”, conta.
A morte também mudou os caminhos do manuscrito. O projeto, que inicialmente tinha um caráter mais próximo de uma narrativa biográfica, passou a ser construído como autoficção.
Jhames preservou experiências e lembranças reais, mas adotou nomes fictícios para os personagens. A história que ele pretendia escrever sobre a infância também ganhou um desfecho que não havia sido planejado.
“A história que antes eu queria contar sobre a infância ganhou um final que a vida me obrigou a escrever, e não aquele que eu havia imaginado”, explica.
Quatro amigos e um bairro como ponto de partida
“Ainda Escreverei Um Livro Sobre Nós” acompanha Iago, Rael, Thalles e Darin, quatro amigos que crescem no Bairro Lagoa.

A narrativa percorre a infância e a adolescência do grupo, passando pelas brincadeiras, descobertas, sonhos, escolhas e pelos vínculos construídos ao longo dos anos. Ao mesmo tempo, apresenta uma realidade atravessada pela desigualdade social e pela violência.
Embora os personagens tenham nomes fictícios, muitas das situações narradas foram inspiradas nas experiências vividas pelo próprio autor e por pessoas que fizeram parte da infância dele.
É nesse encontro entre memória e ficção que Jhames aborda assuntos como luto, vulnerabilidade social e as consequências das escolhas feitas ao longo da vida. Em paralelo, a amizade ocupa um dos espaços centrais da narrativa.
O livro acompanha justamente essa passagem entre diferentes fases da vida: da simplicidade e da inocência da infância aos acontecimentos que transformam os personagens à medida que crescem.
Um livro que também olha para o lugar onde o autor cresceu
O Bairro Lagoa não aparece apenas como pano de fundo. O lugar onde Jhames cresceu está ligado às memórias que deram origem ao projeto e às questões que ele decidiu levar para a literatura.
Ao contar essa história, o escritor busca provocar uma reflexão sobre realidades presentes em bairros periféricos, sem deixar de valorizar os vínculos construídos nesses espaços.
A proposta também ultrapassa a publicação do primeiro livro. Jhames pretende usar a obra como ponto de partida para aproximar a literatura de outros bairros, especialmente de crianças e jovens que têm menos acesso a livros, escrita e outras formas de expressão artística.
A intenção é incentivar a leitura, estimular novos escritores e mostrar que a arte também pode ser um caminho para ocupar espaços e construir outras possibilidades.
Jhames já mantém outros projetos literários em andamento. Para ele, “Ainda Escreverei Um Livro Sobre Nós” marca o início dessa trajetória, mas também o cumprimento de uma promessa que nasceu na última conversa com um amigo.
Como adquirir o livro
O livro pode ser adquirido por meio do link disponibilizado pelo autor em seu perfil no Instagram. Para acessar, AQUI.