Após 31 anos, Estado brasileiro pede desculpas a ex-policial condenado por crime que confessou sob tortura em Pitanga

Gerson Milusk de Carvalho passou pelo menos nove anos na prisão após ser condenado por um duplo homicídio ocorrido em 1995. Cerimônia realizada nesta quinta-feira (15) marcou o reconhecimento das violações de direitos e um acordo de reparação.
Cerimônia realizada no Fórum de Pitanga marcou o reconhecimento da responsabilidade do Estado brasileiro pelas violações de direitos sofridas por Gerson Milusk de Carvalho. Foto: Divulgação/PMPR.
Cerimônia realizada no Fórum de Pitanga marcou o reconhecimento da responsabilidade do Estado brasileiro pelas violações de direitos sofridas por Gerson Milusk de Carvalho. Foto: Divulgação/PMPR.

O Estado brasileiro reconheceu, nesta quinta-feira (15), a responsabilidade pelas violações de direitos sofridas pelo ex-policial militar rodoviário Gerson Milusk de Carvalho, condenado por um duplo homicídio que confessou sob tortura em Pitanga. O pedido formal de desculpas ocorreu no Fórum da cidade, 31 anos após o início do caso, e foi acompanhado da assinatura de um acordo de reparação pelos danos causados a ele e à família.

A cerimônia reuniu representantes dos governos federal e estadual, do Ministério Público, do Poder Judiciário, da Defensoria Pública e da Polícia Militar, incluindo o comandante do 16º Batalhão de Polícia Militar.

O reconhecimento ocorreu após a atuação da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), órgão ligado à Organização dos Estados Americanos (OEA), que analisou denúncias de irregularidades na investigação e no processo judicial.

Condenação e denúncias de tortura

A história começou em março de 1995, quando Wilson Schon e Irene Maria dos Santos foram assassinados em Pitanga. Gerson foi acusado de participar do crime e, em 1997, condenado a 26 anos de prisão.

Ele sempre negou envolvimento nos assassinatos e afirmou que foi obrigado a confessar após sofrer torturas físicas e psicológicas durante a investigação.

Segundo o relato apresentado pelo ex-policial, ele foi detido sem ordem judicial e submetido a choques elétricos, simulações de afogamento e sessões de tortura conhecidas como “pau de arara”. Gerson também afirmou que prestou depoimentos sem a presença de um advogado.

Apesar das denúncias, a condenação foi mantida, e ele cumpriu pelo menos nove anos de prisão.

Carta escrita na prisão levou o caso a órgão internacional

Durante o período em que esteve preso, Gerson trabalhou na biblioteca da penitenciária e passou a estudar livros de Direito em busca de uma maneira de contestar a condenação.

Foi nesse período que conheceu a possibilidade de recorrer à Comissão Interamericana de Direitos Humanos.

Em 2003, escreveu uma carta à mão relatando as torturas e as irregularidades que, segundo ele, marcaram o processo. O documento foi enviado ao órgão internacional com a ajuda da esposa.

Em 2014, a comissão recomendou ao Brasil a revisão criminal do caso. O reconhecimento público da responsabilidade do Estado ocorreu nesta quinta-feira (15), mais de duas décadas depois do envio da denúncia.

Pedido de desculpas não anula automaticamente a condenação

Durante a cerimônia em Pitanga, o Estado brasileiro reconheceu os danos causados a Gerson e à família e assumiu compromissos de reparação.

O acordo prevê indenização e medidas para evitar que situações semelhantes se repitam. Também foi assumido o compromisso de dar continuidade às investigações para esclarecer os assassinatos de 1995 e identificar os responsáveis.

Apesar do reconhecimento das violações e do pedido de desculpas, a condenação de Gerson não é anulada automaticamente.

O Ministério Público designou um promotor para avaliar a revisão criminal, procedimento necessário para que a situação judicial do ex-policial seja reexaminada.

Família relata consequências de décadas de luta

Em entrevista ao g1, Gerson afirmou que o reconhecimento trouxe alívio, mas também tristeza pelo tempo que passou afastado dos filhos e da esposa.

“Ficar longe da família é a pior coisa que existe no mundo”, declarou.

A filha, Joicy Martins Carvalho, também relatou as dificuldades enfrentadas pela família ao longo dos anos e destacou a persistência do pai na busca pelo reconhecimento de sua inocência.

A Defensoria Pública classificou o pedido de desculpas como um marco no enfrentamento às violações de direitos humanos e informou que continuará acompanhando as medidas de reparação.

O Ministério Público também afirmou que atua para garantir a análise da condenação e a investigação das violações denunciadas.

Atento News, com informações da PMPR e do g1.

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