Emendas ao projeto da Guarda Municipal provocam debate sobre gênero na Câmara de Guarapuava

A discussão e votação das emendas apresentadas ao projeto de lei do Executivo que cria a Guarda Municipal mobilizou a maior parte da sessão legislativa, expondo divergências entre vereadores sobre linguagem inclusiva, participação feminina na corporação, reserva de vagas, ocupação de cargos de comando e critérios de equidade de gênero dentro da futura estrutura de segurança pública do município.
Projeto da Guarda Municipal é votado na Câmara
Foto: Divulgação/ Câmara Municipal

A sessão da Câmara de Vereadores de Guarapuava realizada ontem (25) foi marcada por um debate mais longo e ideologicamente intenso. Embora o Projeto de Lei (E) 67/2025, que cria a Guarda Municipal, tenha avançado em sua tramitação, sendo aprovado em primeira discussão, grande parte da discussão em plenário concentrou-se nas emendas apresentadas pelas vereadoras Professora Terezinha e Cris Wainer – ambas do PT – especialmente aquelas que tratavam de linguagem de gênero, equidade entre homens e mulheres e participação feminina na estrutura da corporação.

O debate expôs visões divergentes que envolveram desde representatividade, técnica legislativa, gramática e meritocracia até políticas afirmativas dentro da segurança pública municipal.

Linguagem de gênero abre a primeira grande discussão

A primeira emenda que iniciou o debate em torno do assunto, foi a Emenda Aditiva 1/2026, de autoria da vereadora Professora Terezinha, que propunha alterar a redação do texto legal para incluir linguagem inclusiva na criação do “Dia do Guarda Municipal”, passando para “Dia do(a) Guarda Municipal”.

Ao defender a proposta, a vereadora argumentou que a mudança era uma adequação necessária ao momento histórico e à presença crescente das mulheres na segurança pública.

“Estamos fazendo uma adequação à redação do projeto… porque a participação das mulheres na sociedade se dá de modo evidente e precisa estar evidenciada também nas nossas legislações.”

Ela reforçou que o termo no masculino não contemplaria as profissionais mulheres:

“A mulher não vai ser o guarda, ela vai ser a guarda municipal.”

Argumento contrário: “redundância legislativa”

O vereador Nego Silvio (PL) se posicionou contra, sustentando que a alteração criaria redundância textual e contrariaria técnicas de redação legislativa.

“O manual de redação diz que as leis têm que ser objetivas… quando se refere à Guarda Municipal é sobre a instituição, não sobre a pessoa.”

Segundo ele, o termo no masculino já representaria o coletivo institucional.

Gramática e simbolismo social

Em nova fala, Professora Terezinha rebateu afirmando que a linguagem tem impacto social e simbólico:

“As palavras têm poder… houve um tempo em que o masculino contemplava o feminino, mas a sociedade evoluiu.”

Ela também citou adequações já adotadas em diplomas universitários e documentos oficiais para diferenciar masculino e feminino.

Professor Pablo se manifestou a favor

Mesmo divergindo ideologicamente da Professora Terezinha, o vereador Professor Pablo (PP) declarou voto favorável à emenda por entender que se tratava de correção gramatical.

“Não há redundância… é apenas uma correção ortográfica necessária.”

O vereador Rodrigo da Agita (PODEMOS) também se posicionou:

“Se não custa nada e é importante para as mulheres, não vejo problema nenhum.”

A emenda foi aprovada com 12 votos favoráveis.

Patrimônio arquitetônico entra nas atribuições

Outra emenda apresentada pela vereadora Professora Terezinha, e que também acabou aprovada pelo plenário, promove uma ampliação nas atribuições institucionais da futura Guarda Municipal, incluindo de forma expressa a proteção do patrimônio arquitetônico do município.

Ao defender a proposta, a parlamentar explicou que a alteração não criava uma nova função, mas apenas detalhava e qualificava melhor o conceito de patrimônio já previsto no texto original do projeto. Segundo ela, a intenção foi alinhar a legislação municipal ao que já estabelece o Estatuto Geral das Guardas Municipais (Lei Federal 13.022/2014), que prevê a atuação das corporações também na preservação de bens históricos e culturais.

“Estamos acrescentando o vocábulo arquitetônico para deixar claro que as guardas e os guardas deverão zelar também pelo aspecto histórico, cultural e arquitetônico dos bens do município.”

Durante a justificativa, a vereadora citou exemplos de estruturas que passariam a estar abrangidas de forma mais explícita pela atuação preventiva da corporação, como prédios históricos, monumentos e espaços públicos com valor simbólico para a cidade.

Entre os exemplos mencionados, ela destacou edificações antigas utilizadas hoje por secretarias municipais, além de estátuas e marcos urbanos em rotatórias e praças, que compõem a identidade arquitetônica e cultural de Guarapuava.

Ela disse ainda que a presença da Guarda nesses espaços contribuiria não apenas para a segurança patrimonial, mas também para a preservação da memória e da história local, prevenindo vandalismo, depredação e outras formas de dano ao patrimônio público.

A emenda foi colocada em votação após a discussão e acabou aprovada, sendo incorporada ao texto do projeto que cria a Guarda Municipal.

O debate mais tenso: comando e alternância entre homens e mulheres

Outra discussão foi durante a discussão da emenda apresentada pela vereadora Cris Wainer.

A proposta previa alternância obrigatória entre homens e mulheres nos cargos de comando da Guarda Municipal.

Segundo a autora, a medida buscava corrigir desigualdades históricas.

“Menos de 20% das mulheres ocupam comandos na segurança pública… queremos garantir esse revezamento.”

Ela argumentou que a presença feminina na liderança fortalece políticas públicas, especialmente no enfrentamento à violência contra a mulher.

Críticas: interferência na autonomia do Executivo

O vereador Professor Pablo liderou a oposição à proposta, alegando que cargos de comando são de confiança do prefeito.

“Eu acredito que o cargo de comando é um cargo de confiança do Executivo. A pessoa que vai assumir essa função precisa ser alguém próximo, de confiança do prefeito, independentemente de gênero. Obrigar o revezamento entre homens e mulheres não faz sentido. A escolha deve ser por confiança e aptidão. Se amanhã ou depois houver uma mulher com perfil e capacidade, obviamente será nomeada, mas não por obrigatoriedade prevista em lei.”

Ele citou exemplos históricos de secretarias dominadas por mulheres, defendendo que a ocupação ocorre de forma natural conforme vocação profissional.

Embate ideológico direto

A resposta da Professora Terezinha elevou o tom do debate, contestando a ideia de vocação natural feminina para o cuidado.

“Não temos vocação para o cuidado. Nós somos educadas para ocupar esse lugar. A sociedade ensina que o cuidado é função da mulher e o comando é função do homem, mas isso não é natureza, isso é construção social. Homens e mulheres têm as mesmas capacidades de liderança, de enfrentamento, de firmeza e de tomada de decisão. Quando se diz que a mulher tem mais vocação para cuidar, isso acaba nos colocando como menos aptas para os espaços de poder, e é justamente essa lógica que precisamos superar.”

Ela afirmou que homens e mulheres possuem igualmente capacidade de comando e que a alternância seria instrumento de equidade.

Apesar das defesas, a emenda foi rejeitada em plenário.

Reserva de vagas: proposta de 50%

Outro ponto de discussão foi a emenda que propunha elevar de 20% para 50% a reserva de vagas para mulheres no ingresso da Guarda.

A justificativa se baseou em dados populacionais:

“Guarapuava é composta por 53% da população do sexo feminino… a nossa proposição é que seja meio a meio, 50%”, disse a vereadora Professora Terezinha.

Novamente, parlamentares contrários defenderam que o ingresso deve ocorrer exclusivamente por desempenho em concurso.

“É concurso público… vai passar quem estudar mais. Então você não pode se limitar”, argumentou o vereador Nego Silvio.

Também foi argumentado que, sendo maioria do eleitorado, mulheres poderiam ampliar representação por vias políticas.

A emenda foi rejeitada por 15 votos.

Discussão religiosa eleva tensão no plenário

Ainda durante a defesa da emenda de 50% de vagas para mulheres, a veredora Professora Terezinha usou um argumento comparativo para sustentar que leis e textos podem ser adaptados ao longo do tempo. A fala gerou forte reação.

“A lei é feita para o homem, não o homem para a lei.”

Na sequência, ampliou o raciocínio mencionando traduções bíblicas:

“Até na Bíblia tem que ser corrigido, porque quem traduziu a Bíblia foi um homem.”

Ela defendia que a linguagem histórica foi construída sob predominância masculina e que isso justificaria adequações legais atuais.

Com isso, o vereador Professor Pablo reagiu:

“Eu me recuso a continuar discutindo com a senhora depois que a (da) senhora profanar a palavra de Deus.”

Ele entendeu que a menção à Bíblia ultrapassava o campo legislativo e atingia um texto sagrado.

A vereadora negou desrespeito religioso e afirmou que utilizava apenas um exemplo histórico-linguístico.

“Estou citando o exemplo… a lei é para o homem, não o homem para a lei.”

E reforçou o ponto sobre tradução:

“Adequada, sim. Porque quem traduziu foi um homem, por isso que só tem homem e não tem mulher”, disse a vereadora.

O vereador voltou a acusar profanação:

“A senhora disse que a Bíblia precisa ser corrigida. A senhora está profanando.”

A vereadora manteve a posição de que falava em termos de adequação histórica da linguagem, não de desrespeito religioso.

Diante da elevação do tom, o presidente da Casa, vereador Pedro Moraes (MDB), interveio para retomar o foco no mérito da emenda e dar continuidade à votação.

Nome do comando: “Comandante” ou “Diretor”?

Outra emenda discutiu a nomenclatura do chefe da corporação.

A proposta defendia substituir “Comandante” por “Diretor(a)”, para reforçar o caráter civil da Guarda.

“Nós temos a lei que disciplina a criação das guardas municipais… e esta lei diz que a estrutura hierárquica da Guarda Municipal não pode utilizar denominação idêntica às forças militares quanto aos postos e graduações, títulos, uniformes, distintivos e decorações. Portanto, estamos propondo que, ao invés do cargo de comandante, que é muito ligado à área militar, se utilize diretor ou diretora da Guarda Municipal, o que reforça o caráter civil da corporação”, argumentou Professora Terezinha.

A base governista rebateu dizendo que a vedação se aplica apenas a patentes militares, não ao termo comandante.

A emenda também foi rejeitada.

Resultado final das emendas de gênero

Aprovadas

  • Linguagem inclusiva no “Dia do(a) Guarda Municipal”
  • Inclusão do patrimônio arquitetônico nas atribuições

Além das emendas que geraram maior repercussão em torno das questões de gênero e estrutura de comando, o Legislativo também aprovou outra alteração de caráter mais técnico no texto do projeto. É a emenda que fixa a exigência de ensino médio completo como escolaridade mínima para ingresso na Guarda Municipal, adequação incorporada à redação final da lei sem gerar debate prolongado em plenário. A medida foi tratada como ajuste de qualificação profissional da futura corporação e integrou o conjunto das três emendas aprovadas durante a tramitação.

Rejeitadas

  • Alternância obrigatória no comando
  • Paridade de 50% nas vagas
  • Mudança de “Comandante” para “Diretor(a)”

Projeto segue avançando

Apesar das divergências, o projeto principal que cria a Guarda Municipal segue tramitando e ainda passará por segunda votação antes da sanção.

A futura corporação, conforme o projeto, terá caráter civil, armada, com ingresso por concurso público e atuação preventiva em todo o município.

A próxima sessão está marcada para segunda-feira (2), e a expectativa é que a segunda votação do projeto seja incluída na pauta.

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