A discussão das emendas ao projeto de lei que cria a Guarda Municipal de Guarapuava, já marcada por divergências ideológicas ao longo da sessão de ontem (25), na Câmara Municipal, registrou outro momento de tensão quando o debate avançou para o campo religioso.
Até então, a discussão se concentrava em temas como reserva de vagas para mulheres, participação feminina na corporação e critérios de equidade dentro da futura estrutura da segurança pública municipal.
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Foi nesse contexto que uma fala acabou provocando reação imediata de vereadores e elevando o tom do debate.
Durante a defesa de uma das emendas, a vereadora Professora Terezinha (PT) utilizou um raciocínio comparativo para, segundo ela, sustentar que leis e construções históricas podem ser revisadas e adaptadas ao longo do tempo.
“A lei é feita para o homem, não o homem para a lei.”
Na sequência, mencionou a Bíblia:
“Até na Bíblia tem que ser corrigido, porque quem traduziu a Bíblia foi um homem.”
A declaração gerou reação no plenário.
O vereador Professor Pablo (PP) interrompeu a fala da vereadora e declarou:
“Eu me recuso a continuar discutindo com a senhora depois que a [da] senhora profanar a palavra de Deus.”
A vereadora rebateu a acusação e negou desrespeito:
“Ai… profanar… por favor, vereador… Estou citando um exemplo: a lei é para o homem e não o homem para a lei, que [a Bíblia] foi ‘traduzido’ por um homem. Se não, teria dito para as pessoas que compreendem homens e mulheres. Baixe o seu grau de santismo, porque o senhor não é tão santo assim… e eu não profanei a palavra de Deus nenhuma vez.”
Professor Pablo voltou a contestar:
“A senhora disse que a Bíblia precisa ser corrigida. A senhora está profanando.”
Professora Terezinha rebateu:
“Adequada, sim. Porque quem traduziu foi um homem, por isso que só tem homem e não tem mulher”, disse a vereadora.
Com a troca direta de acusações e a elevação do clima no plenário, o presidente da Casa, vereador Pedro Moraes (MDB), precisou intervir para restabelecer a discussão das emendas.
Repercussão continuou fora do plenário
Nesta quinta-feira (26), os dois parlamentares envolvidos na discussão utilizaram as redes sociais para se manifestar publicamente sobre o episódio.
O vereador Professor Pablo publicou um vídeo em seu perfil no Instagram comentando a fala feita em plenário. Na gravação, afirmou:
“’Até a Bíblia precisa ser corrigida porque foi traduzida por um homem’… Ontem durante a sessão da Câmara Municipal, em meio a um debate sobre pautas ideológicas, foi feita a afirmação de que até a Bíblia precisa ser corrigida porque foi traduzida por um homem.”
No vídeo, ele defendeu o respeito à fé cristã e estabeleceu limites entre debate político e religião:
“Eu respeito o direito de qualquer pessoa de defender as suas ideias. Eu acho que o parlamento é o espaço do contraditório, mas existe uma diferença entre debater políticas públicas e relativizar aquilo que para milhões de pessoas é fundamento de fé, é consciência, é valor.”
E também declarou:
“A Bíblia Sagrada não é apenas um livro histórico ou literário. Para nós cristãos, ela representa a palavra de Deus transmitida ao longo de séculos.”
“Tratar como algo a ser corrigido por conveniência ideológica ultrapassa o campo do debate político e entra no campo do desrespeito.”
Ao justificar a interrupção da discussão em plenário, afirmou:
“Quando eu disse que não continuaria a discussão após aquela declaração, não foi por falta de argumento, foi por convicção.”
Posicionamento da vereadora
Também nas redes sociais, a vereadora Professora Terezinha publicou um vídeo com o recorte da própria fala durante a sessão.
No vídeo, há a inscrição da seguinte frase:
“O machismo e suas versões.”
Já na descrição da publicação:
“Quando na falta de argumentos o machismo se traveste de santo defensor da Palavra de Deus…”
Reportagem atualizada às 18h45.