Áudio atribuído à secretária de Educação de Guarapuava sobre laudos de autismo gera repercussão nas redes sociais

Gravação tem pouco mais de um minuto e cortes de edição.

Um áudio atribuído à secretária de Educação de Guarapuava, Rosana Aparecida Schwartz, começou a circular nas redes sociais e em grupos de WhatsApp nas últimas horas e passou a repercutir entre familiares de alunos com autismo da rede municipal de ensino e pessoas ligadas à defesa da inclusão escolar.

A gravação tem 1 minuto e 21 segundos de duração e apresenta trechos de uma fala que teria ocorrido durante uma reunião. Até o momento, não há confirmação sobre quando o encontro teria sido realizado.

Também não está claro quem participava da reunião. Não se sabe se o encontro reuniu apenas professores, apenas pais de alunos ou representantes dos dois públicos. Também não se sabe quem fez a gravação do áudio.

Nos trechos que circulam nas redes sociais, a fala atribuída à secretária aborda laudos relacionados ao diagnóstico de autismo e a presença de profissionais de apoio nas escolas. A gravação apresenta diversos cortes de edição, com interrupções abruptas na sequência da conversa.

Transcrição do áudio que circula nas redes sociais

A seguir, a transcrição do áudio divulgado nas redes sociais, conforme o conteúdo compartilhado em aplicativos de mensagem. A gravação apresenta diversos cortes de edição, com interrupções na sequência da fala.

“Mas contem pra mim, vocês contem pra mim… pra eu ter certeza que eu não tô louca. Se a mãe tivesse…”

Neste momento há um corte. Depois do corte pula para a seguinte fala:

“Conversa… a gente precisa estudar. A gente precisa estudar. Porque a conversa, né? O pai chega aqui… pintam com aqueles laudos, ‘deixa’ a gente quase louca. E tem mais uma coisa, gente. (Termina com uma palavra inaudível).”

Na sequência, há mais um corte de edição na fala, interrompendo uma sequência lógica da fala e do assunto.

O áudio, então, retoma:

“Nós, nós e nós (inaudível).
Porque não adianta a mãe chegar para nós e esfregar na nossa cara ‘porque quer, porque quer…’, sendo que o filho dela tem autonomia.”

Neste momento, não há uma edição de corte na fala. Mas é perceptível, ao fundo, alguém discordar com um “não” em tom baixo, quase imperceptível.

A sequência da fala, atribuída à secretária, nesse ponto sem edição, é:

“Ele vai ao banheiro sozinho, ele come sozinho. Ele é calmo. Ele está sendo medicado. Nós precisamos trabalhar o contrário com ele. Nós precisamos dar espaço pra que ele se…”

Mais uma vez, a fala é interrompida por um corte.

O áudio retoma com a manifestação de outra mulher, cuja identidade não é mencionada na gravação:

“Final de apoio.”

Neste momento seguinte, outras pessoas — vozes femininas — também se manifestam. É possível perceber as falas, mas o conteúdo não é audível com clareza.

Na sequência, a voz atribuída à secretária volta a aparecer:

“O laudo, gente… O laudo é uma coisa assim, muito fácil de se conseguir.”

Há outro corte ao fim dessa fala.

O áudio retoma com o que seria novamente a secretária falando:

(Pausa silenciosa)

“Então não adianta a professora arrancar os ‘cabelo’. Ela vai ter que aprender a lidar com aquela criança. Outro…”

Nesse momento ocorre novo corte na gravação.

Por fim, o áudio encerra com outro trecho atribuído à secretária:

“A questão do laudo não justifica um profissional de apoio.”

O arquivo divulgado nas redes sociais termina com um corte seco, sem continuidade da fala.

Postagem nas redes sociais

Em meio à repercussão do caso, a secretária publicou uma mensagem em seu perfil no instagram.

Na imagem compartilhada, aparece a frase:

“Precisamos moralizar a Educação. Chega de fake news!”

A postagem foi interpretada por usuários das redes sociais como uma resposta à circulação do áudio.

Foto: Reprodução/ Instagram

Manifestação

Entre as manifestações públicas sobre o caso está a da defensora dos direitos e da conscientização do autismo, Losanja Gonzales, que também é ex-presidente da AGMA — Associação Guarapuava Mundo Azul, entidade que reúne famílias de pessoas no espectro autista no município.

Em um vídeo divulgado nas redes sociais, ela afirmou que ao receber o áudio ficou “chocada” e “indignada” com o conteúdo.

Losanja. Reprodução/ Instagram

Losanja destacou que muitas famílias enfrentam dificuldades para conseguir diagnóstico, já que o processo pode ser demorado e, em muitos casos, exige avaliações especializadas que nem sempre estão acessíveis financeiramente.

A defensora também mencionou o Benefício de Prestação Continuada (BPC), pago a pessoas com deficiência em situação de vulnerabilidade social. Ela explicou que o acesso ao benefício exige renda familiar muito baixa e que, para recebê-lo, a renda por pessoa da família deve ser de até um quarto do salário mínimo, o que, segundo ela, demonstra que não se trata de vantagem, mas de uma política voltada a famílias em situação de vulnerabilidade.

Para Losanja, o diagnóstico e o acesso a profissionais de apoio nas escolas estão relacionados à garantia de direitos e à inclusão educacional, e não a benefícios indevidos. Durante o vídeo, ela afirmou que “ninguém corre atrás de laudo por vantagem”, ressaltando que as famílias buscam diagnóstico para garantir atendimento adequado e condições de aprendizagem para os estudantes.

Ela também destacou que pais e mães de pessoas no espectro autista enfrentam desafios diários e que muitas vezes encontram dificuldades para assegurar atendimento especializado e inclusão efetiva no ambiente escolar.

Associação divulgou nota de repúdio

Em nota divulgada nas redes sociais, a Associação Guarapuavana Mundo Azul (AGMA) manifestou repúdio às falas atribuídas à secretária municipal de Educação. No documento, a entidade afirma que as declarações divulgadas associariam pais e mães de pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) à busca por laudos para obtenção de benefícios financeiros, além de comentários sobre famílias que solicitam professor de apoio para acompanhamento escolar.

A associação classificou as declarações como “preocupantes, desrespeitosas e generalizantes” e destacou que a solicitação de professor de apoio não é privilégio, mas um direito garantido por lei, citando a Lei Berenice Piana e a Lei Brasileira de Inclusão.

A nota também menciona que muitas famílias enfrentam dificuldades para conseguir diagnóstico, atendimento especializado e apoio educacional adequado.

O documento é assinado pela presidente da AGMA, Eliane Scavronski.

Secretária está abalada, afirma fonte

A reportagem também conversou com uma pessoa próxima à secretária, que relatou que Rosana Schwartz está bastante abalada com a repercussão do caso.

“Chega de Fake News”, diz publicação da secretária Rosana nas redes sociais. Foto: Reprodução/ Instagram

Segundo o relato, o conteúdo divulgado nas redes sociais foi editado e retirado de contexto, o que acabou distorcendo o sentido original da fala.

A mesma fonte afirmou ainda que a secretária tem um familiar no espectro autista, o que reforçaria que a intenção da fala não seria desrespeitar pessoas com autismo ou suas famílias.

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