Da pecuária a vinhedo, família aposta em vinho e espumante e coloca Guarapuava no mapa da vitivinicultura

Em seis anos, projeto da família Horst saiu do zero, já produz milhares de garrafas, aposta no enoturismo e trabalha para fazer todo o processo, da uva à garrafa, em Guarapuava.
Alberto, Gabriela e Joelma Horst no vinhedo da família em Guarapuava, produtores de vinho e espumante no Paraná.
Alberto, Gabriela e Joelma Horst, em meio ao vinhedo da família em Guarapuava, celebram o projeto que transformou uma antiga área de criação de gado em vinícola e aposta em vinho e espumante com identidade local. Foto: Reprodução/ Cleo Ferreira/ Atento News

Guarapuava ainda não é uma cidade que a gente escuta e logo associa ao vinho. Não como a Serra Gaúcha ou outras regiões já tradicionais do país. Mas é justamente nesse “ainda” que a família Horst decidiu apostar. Em uma propriedade a poucos metros da PR-170, entre o distrito de Entre Rios e a área urbana da cidade, eles estão construindo, com paciência, método e muito trabalho de campo, um projeto que em apenas seis anos saiu do zero, começou a produzir e agora busca consolidar um vinho com identidade local. A reportagem do Atento News esteve na propriedade neste domingo (25) e acompanhou uma das colheitas do ano.

Hoje, quem chega encontra fileiras de parreiras ocupando quatro hectares dentro de uma área total de 45 (hectares). O projeto começou em 2020, com o plantio das primeiras 10 mil mudas importadas da Itália. Desde então, o vinhedo foi crescendo em etapas, com novos plantios em anos seguintes, até chegar ao número atual de cerca de 16 mil videiras. Muitas delas ainda não atingiram o auge da maturidade produtiva, o que ajuda a explicar por que a família trabalha com projeções de crescimento importantes para os próximos anos.

Foto: Reprodução/ Moacir Cruz/ Imagens cedidas

À frente de tudo estão Alberto Horst, a esposa Joelma e a filha Gabriela. A história, no entanto, não começou com vinho. A propriedade foi comprada como um sítio para descanso. “Na verdade, a gente comprou principalmente pra poder descansar”, conta Gabriela, rindo. “Mas a gente não descansa muito. A gente trabalha bastante.” Antes das uvas, quem ocupava o espaço era o gado, cerca de 50 cabeças de Red Angus. A atividade, porém, não se mostrou viável. No verão, os animais ganhavam peso. No inverno, perdiam. A conta não fechava, e o descontentamento com a pecuária acabou abrindo espaço para uma mudança completa de rumo.

O estalo veio fora de Guarapuava, durante uma visita a uma vinícola em São José dos Pinhais, num dia de chuva, durante um almoço. A topografia cheia de morros e pedras lembrava muito a da propriedade da família. Em algum momento, Alberto e Joelma tiveram o mesmo pensamento: por que não tentar algo parecido em Guarapuava? A ideia virou decisão rapidamente. Na mesma semana, voltaram, venderam o gado e começaram a planejar o novo projeto. A vinícola visitada acabou se tornando também parceira, e até hoje é lá que acontece a vinificação, o processo de transformar a uva em vinho.

Transição

Até então, a vida de Alberto era bem distante do mundo rural. Ele trabalhava em uma multinacional e atuava principalmente com mercado externo. “Eu trabalhava numa empresa internacional, fazia bastante mercado externo e um tempo atrás resolvemos dar uma desacelerada”, conta. Hoje, mantém apenas uma pequena parte daquela atividade e se dedica quase integralmente ao vinhedo.

Foto: Reprodução/ Cleo Ferreira/ Atento News

A aposta na uva não foi feita sem estudo. Antes de plantar a primeira muda, ele mesmo comparou dados de Guarapuava com Bituruna, que fica a menos de 100 quilômetros em linha reta, e também com a Serra Gaúcha. Chegou à conclusão de que, em muitos aspectos, o clima local oferece condições tão boas quanto, e em alguns pontos até melhores. Um dos fatores decisivos foi a amplitude térmica, com noites frias e dias mais quentes, combinação considerada ideal para a viticultura.

O primeiro grande teste veio logo no início, quando chegaram as 10 mil mudas importadas da Itália. Elas tinham prazo curto para ir para a terra. Se não fossem plantadas rapidamente, se perderiam. No primeiro dia, com pouca gente ajudando, a família percebeu que o desafio era muito maior do que parecia. Pouco mais de 500 mudas tinham sido plantadas. “Aí bateu o desespero”, lembra Alberto. A solução foi pedir ajuda. Familiares e amigos foram chamados, e o plantio virou um grande mutirão. Em alguns dias, chegaram a trabalhar ali cerca de 55 a 60 pessoas, todas de forma voluntária. Em cinco dias, todas as mudas estavam na terra. “Eu nem consigo falar quem são, porque são muitas pessoas, mas todo mundo tem uma parte nessa história”, resume.

Foto: Reprodução/ Cleo Ferreira/ Atento News

Entre essas pessoas está Zeleide Horst, irmã de Alberto, que mora em Laranjeiras do Sul e sempre que pode participa das colheitas. Ela acompanhou o projeto desde o início, ajudou no plantio, nas podas e hoje volta para colher os frutos do que ajudou a construir. “A gente viu isso aqui nascer. Ajudou a plantar, ajudou nas podas. Sempre que ele avisa no grupo da família que vai ter colheita, a gente se organiza pra estar aqui e compartilhar esse momento”, conta.

Outro amigo presente na colheita acompanhada pela reportagem foi José Carlos Moreira, corretor de seguros, que faz questão de participar como voluntário. “Isso aqui é história. A gente não tá só colhendo uva, tá ajudando a construir algo que vai ficar pro futuro”, diz.

Cultivo com técnica

Seis anos depois, o cenário é outro. O que começou na pressa virou rotina de campo, manejo e decisão técnica. Hoje, o cultivo é feito com uso mínimo de produtos químicos e prioridade para práticas mais sustentáveis. Nas épocas de colheita, telas protegem as uvas de insetos, pássaros e outros animais. Duas semanas antes da colheita, a cada três dias, são feitas análises para definir o ponto ideal da fruta. Esse trabalho envolve uma parceria com a Unicentro, que desenvolve pesquisas em nível de mestrado, doutorado e pós-doutorado dentro do vinhedo, com foco especialmente em cultivo orgânico.

Foto: Reprodução/ Cleo Ferreira/ Atento News

Até a produção é limitada de propósito. As parreiras poderiam produzir mais, mas a família prefere conter o crescimento para concentrar aroma e sabor. A lógica é simples e orienta todo o projeto: menos volume, mais qualidade.

A colheita que o Atento News acompanhou neste domingo foi a primeira do ciclo do ano e tem destino específico, a produção de espumante. Embora o vinhedo cultive sete variedades: Cabernet Franc, Malbec, Syrah, Merlot, Sangiovese, Pinot Noir e Chardonnay; nesta etapa entram apenas duas: Pinot Noir e Chardonnay, colhidas mais cedo, ainda com mais acidez, característica essencial para esse tipo de bebida.

A expectativa dessa colheita específica é de cerca de 3.500 quilos de uva. No total do ano, a projeção é chegar a aproximadamente 22 toneladas. Em número de garrafas, o crescimento também é visível. Em 2023 foram cerca de 5 mil, em 2024 foram 12 mil, em 2025 chegaram a 15 mil e agora, em 2026, a previsão é alcançar 17 mil. Quando as parreiras estiverem adultas, a família acredita que dá para chegar perto de 30 mil garrafas por safra. Para a atual, a estimativa é de cerca de 17 mil garrafas no total, sendo aproximadamente 3 mil de espumante.

Além das uvas produzidas na própria área, a vinícola também compra matéria-prima de outros produtores da cidade, como Cabernet Sauvignon, Riesling e Alvarinho. Segundo a família, hoje Guarapuava já conta com 13 produtores de uvas finas.

Menos é mais

A proposta da família é seguir como vinícola boutique. Produzir menos, mas com mais valor agregado. Os vinhos não vão para grandes redes. Hoje, os vinhos são vendidos em cerca de dez pontos específicos da cidade. À reportagem, a família citou como exemplo um restaurante e um hotel de Guarapuava que já trabalham com os rótulos da vinícola.

Foto: Reprodução/ Cleo Ferreira/ Atento News

No centro do projeto está o conceito de terroir, a ideia de que o vinho deve expressar o solo, o clima e o jeito de produzir de Guarapuava. “A gente quer que o vinho tenha a cara da cidade”, resume Alberto.

O projeto também ganhou uma dimensão maior. Segundo ele, a intenção hoje é ajudar a fomentar a vitivinicultura no Paraná. “A maior parte do vinho produzido no estado ainda é feita com uvas que vêm de fora”, explica. A convicção da família é de que o Paraná tem condições de produzir a própria matéria-prima para o vinho que já elabora.

Por enquanto, a vinificação da Horst segue sendo feita em São José dos Pinhais. Mas a família já comprou uma área ao lado da propriedade e trabalha com uma meta. Até 2028, todo o processo deve ocorrer em Guarapuava, da uva à garrafa. Parte dos equipamentos já existe e hoje está sendo utilizada na vinícola parceira.

Rótulos e significados

Dentro da cave, como são chamados os ambientes escuros e com temperatura controlada para guardar e envelhecer vinhos, o produto deixa de ser apenas bebida e vira memória. Ali, as garrafas ficam organizadas por setores, em espaços mantidos a cerca de 18 graus, pensados justamente para conservar cada rótulo nas condições ideais. Cada rótulo conta um pedaço da história da família e do lugar.

Nos espaços onde são armazenados, os vinhos deixam de ser apenas produto e viram memória. “Todos os nossos rótulos têm uma história”, explica Joelma. O Madre, por exemplo, é o vinho branco da vinícola e representa a homenagem à Nossa Senhora Aparecida, cuja imagem foi encontrada na propriedade. Quem prefere pode levar a garrafa com o Manto Madre, que é o mesmo vinho, acompanhado de um adereço em alusão ao manto da santa. “A gente quis ligar o vinho branco à ideia de pureza”, conta ela.

Foto: Reprodução/ William Batista/ Atento News

O Dom Alberto é o rótulo que leva o nome do próprio proprietário e ainda traz uma partitura musical impressa na garrafa, que pode ser tocada. O Cisne Negro nasceu no dia em que, no mesmo tanque onde a família encontrou a imagem de Nossa Senhora, apareceu também um cisne negro, o que acabou inspirando o nome do Pinot Noir. O Santa Cruz é a homenagem direta ao bairro onde a família construiu sua história e onde sempre viveu, em Guarapuava.

Foto: Reprodução/ William Batista/ Atento News

O Damah é o rótulo dedicado às mulheres da vinícola, à própria Joelma, à filha Gabriela e também à filha que não chegou a nascer, que se chamaria Helena. “Esse rótulo foi pensado só por mulheres, desde o nome até o design da garrafa”, explica. O Angolista nasceu de uma fase curiosa da propriedade, quando havia muitos animais peçonhentos na área e a solução encontrada foi criar galinhas-d’angola para ajudar a afastá-los. O Mil e Cem carrega no nome a altitude da propriedade, em torno de 1.100 metros, reforçando a proposta de vinhos de altitude. O Plátano homenageia uma árvore centenária, com mais de cem anos, plantada pelo pai de um parceiro que fornece uvas para a vinícola. Já o Três Torres completa a linha como rótulo de Sangiovese e também faz parte da história construída ao longo desses primeiros anos do projeto.

Foto: Reprodução/ William Batista/ Atento News

“O que a gente quis foi isso: que cada vinho carregasse um pedaço da nossa história e da história desse lugar”, resume Joelma.

Além de vitivinicultor, Alberto já é sommelier formado. Joelma também está se especializando na área e deve concluir o curso de sommelier em maio.

Visitações

Mais do que produzir vinho, a família decidiu abrir o espaço e compartilhar o que construiu. O projeto também aposta no enoturismo, que é quando a pessoa não vem só para comprar, mas para conhecer e viver o lugar. A propriedade recebe visitantes para passeios e também pode ser alugada para eventos, como casamentos, por exemplo. A proposta é que as pessoas possam passar o dia ali, com calma, aproveitando o ambiente, afirma Joelma.

Foto: Reprodução/ Moacir Cruz/ Imagens cedidas

Segundo ela, a ideia é oferecer uma experiência de campo, onde dá para caminhar entre as parreiras, ver os peixes no lago e, na época certa, até colher uva no pé, coisas simples, mas que muita gente já não vive mais no dia a dia.

Enquanto mostrava uma das etapas finais do processo, a rotulagem das garrafas, Gabriela explicou à reportagem como tudo ainda é feito ali mesmo, de forma manual e cuidadosa. Em uma sala ao lado dos locais onde os vinhos ficam armazenados, rótulo, cápsula e selo vão sendo colocados um a um, com bastante atenção, já que as garrafas têm relevo e precisam ficar bem alinhadas. Algumas recebem ainda o selo que identifica a segunda colheita. É um trabalho que, muitas vezes, ocupa um dia inteiro só de rotulagem. É nesse momento que ela resume o que tudo isso significa: “Eu fico muito feliz. É um processo muito gratificante, porque a gente não planta uva, a gente planta vinho. Quando a gente acompanha tudo, começa a dar muito mais valor a cada etapa.”

Festa

No dia 21 de fevereiro, a vinícola realizará a 4ª Festa da Colheita, um evento aberto ao público que marcará mais uma etapa da história do projeto. A programação irá das 16h às 22h e incluirá vinhos da própria vinícola, mesa de frios e atrações artísticas, com objetivo, segundo os anfitriões, de receber visitantes e apresentar o espaço para a comunidade.

As informações sobre ingressos e acesso estão disponíveis na página oficial da vinícola no Instagram.

Reportagem de William Batista e Cleo Ferreira.

Últimas atualizações