Entre sacas, baldes e uma máquina movida por correia: a história de uma das últimas beneficiadoras de arroz de Pinhão-PR

No bairro Araucária, em Pinhão, uma pequena beneficiadora instalada na parte da frente de uma casa mantém viva uma atividade cada vez mais rara. Aos 72 anos, Nilda da Luz preserva o trabalho de transformar arroz com casca em alimento pronto para a mesa, agora com o apoio do neto Guilherme.
Dona Nilda da Luz mostra o arroz já beneficiado nas mãos na pequena beneficiadora mantida por ela em Pinhão.
Dona Nilda da Luz mostra o arroz já beneficiado nas mãos na pequena beneficiadora mantida por ela em Pinhão. Foto: William Batista/ Atento News

Em um tempo em que quase ninguém vê o arroz antes de ele virar produto embalado no supermercado, uma casa no bairro Araucária, em Pinhão, guarda um pedaço vivo da cultura rural da região. Logo na parte da frente da residência de Nilda da Luz, de 72 anos, funciona uma pequena beneficiadora de arroz, uma das últimas em atividade na região.

Quem chega até ali, geralmente vem do interior. São pequenos produtores que ainda plantam arroz para consumo próprio. O grão chega em grandes sacos, recém-saído da lavoura, ainda com casca. Antes de qualquer coisa, o peso é conferido em uma balança grande, daquelas que exigem o uso de contrapeso manual para ajustar a medida exata da sacaria.

Assista a reportagem no vídeo mais abaixo.

Arroz ainda com casca. Foto: William Batista/ Atento News

O ambiente é simples, mas organizado. Dentro de um cômodo separado da casa, está a máquina que há mais de duas décadas cumpre a mesma função: beneficiar o arroz. O processo segue uma sequência prática e eficiente. O grão é retirado dos sacos, colocado em baldes e, em seguida, despejado dentro do equipamento.

Em questão de segundos, a máquina faz o processamento. A casca vai sendo separada pelo caminho. O arroz sai limpo do outro lado, já branquinho. Não sobra palha. A quirerinha, que é a parte quebradiça do grão, é automaticamente direcionada para outra canaleta. Apesar de não ter grandes aparatos tecnológicos, o equipamento é preciso. Funciona ligado à energia elétrica e opera por meio da rotação de uma correia. O retorno do arroz beneficiado para dentro do saco ocorre assim que ele está visualmente limpo, sem nenhuma casca.

“Ela não tem reservatório para ficar arroz estocado. O arroz entra e sai limpo do outro lado”, explica Nilda.

O endereço é conhecido principalmente por agricultores: Rua Gabriel Ferreira, 26, em frente à Associação Clube da 3ª Idade.

O começo na atividade

Nilda nasceu e sempre viveu em Pinhão. A relação com o arroz começou de forma despretensiosa.

“Comecei a descascar arroz com uma maquininha pequena, só para o nosso uso, e daí o povo descobriu e foi vindo.”

O que era apenas para consumo da família rapidamente virou serviço para a comunidade. A procura aumentou e a família investiu em máquinas maiores.

Aos 72 anos, Nilda da Luz mantém em funcionamento uma das últimas máquinas beneficiadoras de arroz de Pinhão. Foto: William Batista/ Atento News

“Tinha dia que eu e meu marido descascávamos mil quilos de arroz por dia.”

Durante anos, o beneficiamento foi intenso. O marido, que trabalhava como pedreiro e carpinteiro, viu na máquina uma alternativa de renda mais estável. A atividade transformou a vida da família.

“Tudo que nós temos foi graças ao descascador de arroz.”

Com o trabalho, conseguiram comprar terreno, organizar uma pequena chácara e estruturar a vida. Mas o cenário do campo mudou. O número de pessoas que plantam arroz diminuiu drasticamente.

“Hoje em dia pouca gente planta arroz. A maioria já pega no mercado.”

Uma profissão cada vez mais rara

Atualmente, Nilda é considerada a única beneficiadora de arroz em funcionamento em Pinhão.

“Já teve outras máquinas, mas largaram mão. O arroz encolheu.”

A expressão resume o que aconteceu nas últimas décadas: menos lavouras, menos demanda, menos continuidade. Ainda assim, existe um público fiel.

“Sobrevive só por causa do povo que se acostumou a comer esse arroz. Eles não gostam de arroz do mercado.”

Os clientes vêm principalmente do interior, mas também de localidades como Guarapuava, Reserva do Iguaçu, Candói e Faxinal do Céu.

Muitos são famílias que mantêm pequenas plantações por tradição. Para eles, o sabor e a confiança no próprio cultivo fazem diferença.

Entre o passado e o futuro

A rotina de Nilda mudou nos últimos anos. Após passar por uma cirurgia e implantar um marca-passo, ela reduziu o ritmo. Além disso, o marido foi diagnosticado com Alzheimer, exigindo mais atenção em casa.

“Agora eu me dedico a cuidar do marido que Deus me deu. Tenho que ter mais tempo para ele.”

Foi nesse contexto que o neto, Guilherme de Góes, de 22 anos, passou a assumir parte do trabalho.

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Nilda da Luz e o neto Guilherme de Góes mantêm ativa uma das últimas beneficiadoras de arroz em funcionamento em Pinhão. Foto: William Batista/ Atento News

“Eu entrei quando minha avó fez uma cirurgia. Ela não podia erguer peso. Assumi enquanto ela se recuperava e acabei ficando até hoje.”

Estudante, Guilherme representa uma geração que cresceu comprando arroz pronto no mercado. Aprender a lidar com o grão ainda com casca foi, para ele, uma experiência diferente.

“É bom aprender. Principalmente a questão da cultura do arroz. Isso é uma coisa que vai se perdendo.”

Apesar do envolvimento, ele reconhece que o futuro da atividade é incerto.

“Acho que isso vai acabar se perdendo, porque o pessoal vai parar de plantar arroz. Muita gente nem conhece o arroz com casca.”

Sobre não parar

Nilda já pensou em parar.

“Eu digo que vou parar, porque é pouco. Mas o povo não se conforma.”

Há, no discurso dela, uma mistura de cansaço e compromisso.

“Eu tenho dó. Não paro por causa deles.”

Orgulhosa, ela define com simplicidade a própria ocupação:

“Eu sou beneficiadora de arroz. Gosto do que faço.”


Por William Batista e Cleo Ferreira

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