A empresa Centro Integrado em Saúde (CIS), responsável pela contratação de profissionais que atuam no Hospital Regional Centro-Oeste, em Guarapuava, optou pela rescisão do contrato mantido com a Fundação Estatal de Atenção em Saúde do Estado do Paraná (Funeas). A definição foi anunciada nesta terça-feira (2), após uma série de negociações envolvendo representantes da empresa, da Funeas, da Secretaria de Estado da Saúde (Sesa), da direção do hospital e dos trabalhadores.
A medida encerra um impasse que vinha mobilizando profissionais da saúde da unidade nas últimas semanas em torno de reivindicações relacionadas ao Piso Nacional da Enfermagem e ao pagamento de valores retroativos. Como parte do acordo, foi definida a suspensão da greve aprovada pela categoria, mediante a formalização de uma proposta que prevê pagamento de parte dos valores reivindicados ainda neste mês e a regularização do piso salarial dos profissionais de enfermagem em carteira de trabalho.

Embora a rescisão contratual tenha sido definida, a saída da empresa não ocorrerá de forma imediata. Conforme anunciado pela Funeas e pela direção do Hospital Regional, foi estabelecido um período de transição de até 120 dias. Durante esse prazo, a CIS continuará responsável pelos serviços atualmente prestados na unidade enquanto são realizados os procedimentos necessários para uma nova contratação.
O que foi definido
As definições foram apresentadas aos trabalhadores na tarde desta terça-feira, durante uma mobilização realizada em frente ao Hospital Regional Centro-Oeste. O primeiro anúncio foi feito pelo advogado do Sindicato dos Empregados em Estabelecimentos de Serviços de Saúde de Guarapuava e Região (SEESSG), Victor César Andrade.
Segundo ele, a empresa concordou em realizar o pagamento de 30% dos valores considerados em atraso como entrada e parcelar o saldo restante em seis parcelas. O advogado afirmou ainda que o acordo contempla a inclusão do Piso Nacional da Enfermagem nas carteiras de trabalho dos profissionais abrangidos pela negociação.

Conforme informado pelo sindicato, a proposta anunciada nesta terça-feira corresponde ao modelo que já havia sido discutido, votado e aprovado anteriormente pelos trabalhadores em assembleias realizadas pela categoria.
O sindicato informou ainda que foi discutida a disponibilização da relação dos atuais trabalhadores às futuras empresas contratadas, com a intenção de priorizar a contratação desses profissionais. Segundo o advogado, a entidade acompanhará o processo para verificar o cumprimento dos compromissos anunciados.
Reivindicações vinham sendo discutidas há meses
O impasse envolvendo os trabalhadores ganhou maior visibilidade nos últimos dias, mas vinha sendo discutido havia meses.
Em nota oficial divulgada na sexta-feira (29), o SEESSG afirmou que a empresa CIS não estaria realizando os pagamentos considerados corretos aos trabalhadores da enfermagem, técnicos de enfermagem e auxiliares de enfermagem que atuam no Hospital Regional Centro-Oeste.

Segundo o sindicato, os pagamentos realizados estariam abaixo do Piso Nacional da Enfermagem, estabelecido pela Lei Federal nº 14.434/2022. A entidade afirmou que a situação vinha gerando prejuízos econômicos aos trabalhadores e que o tema estava em discussão havia mais de quatro meses.
Ainda conforme a nota, a empresa teria apresentado uma proposta para pagamento dos valores retroativos em oito parcelas, mas sem a inclusão do piso nacional nas carteiras de trabalho. O sindicato informou que a categoria rejeitou a proposta e apresentou contrapropostas que previam pagamento de 30% de entrada e parcelamento do restante em seis vezes, desde que o piso fosse formalmente registrado.
A nota também relata que a categoria realizou assembleias para deliberar sobre o assunto e que a manifestação desta terça-feira foi convocada após a continuidade do impasse.
Reunião de segunda-feira (1º) definiu os encaminhamentos
Os encaminhamentos anunciados nesta terça-feira tiveram origem em uma reunião realizada na tarde de segunda-feira (1º), em Guarapuava, entre representantes da Fundação Estatal de Atenção em Saúde do Paraná (Funeas), da Secretaria de Estado da Saúde (Sesa), da Procuradoria Jurídica da fundação e da empresa Centro Integrado em Saúde (CIS).
Em vídeo apresentado à imprensa nesta terça-feira, o diretor-presidente da Funeas, Geraldo Gentil Biazek, informou que esteve pessoalmente em Guarapuava acompanhado por representantes da Secretaria de Estado da Saúde e da Procuradoria Jurídica da fundação para uma agenda voltada exclusivamente à busca de uma solução para o impasse envolvendo os trabalhadores da saúde que atuam no Hospital Regional Centro-Oeste.

Segundo Biazek, foi realizada uma reunião com a direção da empresa contratada para discutir alternativas para a regularização da situação. O presidente da Funeas afirmou que, em razão do prolongamento das discussões e de questões relacionadas à logística da agenda, não foi possível realizar o encontro que estava previsto com representantes dos trabalhadores e do sindicato.
O que diz a direção do Hospital
Durante coletiva de imprensa realizada nesta terça-feira, o diretor do Hospital Regional Centro-Oeste, Fernando Guiné, informou que a reunião se estendeu por mais de três horas. De acordo com Guiné, durante a reunião foram analisadas alternativas para solucionar o impasse envolvendo os trabalhadores vinculados à CIS. Ao final das discussões, a Funeas apresentou duas possibilidades à empresa.

A primeira previa a regularização da situação dos profissionais, com a anotação do Piso Nacional da Enfermagem na carteira de trabalho e a construção de um acordo para pagamento dos valores retroativos reivindicados pela categoria.
A segunda possibilidade era a rescisão do contrato mantido entre a empresa e a Funeas.
Segundo o diretor do hospital, foi concedido prazo de 24 horas para manifestação da empresa. Na manhã desta terça-feira, a CIS comunicou oficialmente que optaria pela rescisão contratual.
A partir dessa definição, foi iniciado o processo de transição que deverá ocorrer ao longo dos próximos 120 dias. Durante esse período, a empresa continuará responsável pelos serviços prestados na unidade enquanto a Funeas conduz os procedimentos necessários para uma nova contratação.
Hospital afirma que fiscalização acompanha contrato desde fevereiro
Durante a coletiva, Fernando Guiné afirmou que a fiscalização do contrato vinha sendo realizada desde o início da prestação dos serviços.
Segundo ele, contratos públicos possuem mecanismos específicos de gestão e fiscalização e, no caso do Hospital Regional Centro-Oeste, foi constituído um gabinete responsável por acompanhar a execução contratual desde o começo da operação.
O diretor informou que em 13 de fevereiro deste ano já havia sido encaminhado um documento oficial à empresa abordando questões relacionadas às obrigações trabalhistas, incluindo o Piso Nacional da Enfermagem.

O contrato entre a Funeas e a CIS foi firmado em 5 de janeiro de 2026 e tinha vigência inicial prevista de dois anos, ao valor de cerca de 82 milhões de reais. As primeiras equipes contratadas pela empresa passaram a atuar no hospital em 15 de fevereiro.
Em razão da rescisão antecipada do contrato, a Funeas e os setores jurídicos responsáveis deverão analisar eventuais ônus e responsabilidades decorrentes da decisão da empresa de encerrar o vínculo antes do prazo originalmente previsto.
Cerca de 280 profissionais estão vinculados à empresa
De acordo com Fernando Guiné, aproximadamente 280 profissionais atuam no Hospital Regional por meio da CIS. O grupo inclui profissionais da enfermagem e trabalhadores de outras áreas assistenciais.
Segundo ele, durante o período de transição a empresa continua obrigada a manter a operação normalmente e garantir o quadro necessário para a continuidade dos serviços prestados à população.
O diretor afirmou que a gestão e a fiscalização do contrato continuarão sendo realizadas pela Funeas e pelo hospital ao longo dos próximos 120 dias.
Hospital registrou redução temporária em procedimentos
Questionado sobre os reflexos da mobilização dos trabalhadores, Fernando Guiné afirmou que houve impactos pontuais na rotina hospitalar.
Segundo ele, as manifestações realizadas pelos profissionais e as adequações de escala promovidas pela empresa provocaram uma redução temporária no número de cirurgias realizadas nos últimos dias.
Apesar disso, o diretor afirmou que os atendimentos continuaram sendo prestados e que o trabalho deverá seguir normalmente durante o período de transição.
Unidade atende pacientes de até 80 municípios
Durante a coletiva, Fernando Guiné também destacou a relevância do Hospital Regional Centro-Oeste dentro da rede pública estadual. Segundo ele, a unidade realizou 6.780 cirurgias ao longo de 2025 e atualmente recebe pacientes regulados pela Central de Leitos e pelo programa Opera Paraná.
De acordo com o diretor, o hospital atende pacientes provenientes de 60 a 80 municípios vinculados a diferentes regionais de saúde do Paraná.
Por esse motivo, segundo a direção da unidade, uma das preocupações durante todo o processo foi garantir que as discussões envolvendo empresa e trabalhadores não comprometessem a continuidade da assistência prestada à população.
Por William Batista e Cleo Ferreira – Reportagem atualizada às 13h40 – 03/06/2026.