Uma garrafão de café, copos, pequenos bilhetes e poucos segundos enquanto o semáforo permanece fechado. É dessa forma que Gabriel Do Valle Garcia, de 27 anos, começou uma nova etapa da vida nas ruas de Guarapuava. Depois de enfrentar cerca de dez anos de dependência química e passar por uma casa de recuperação, ele afirma estar há oito meses sem usar drogas e encontrou na venda de café uma maneira de obter renda e, ao mesmo tempo, compartilhar sua história de superação.
A reportagem do Atento News encontrou Gabriel trabalhando na Avenida Manoel Ribas, no cruzamento com a rua Guaíra, no centro. Entre uma abordagem e outra aos motoristas, ele contou como chegou até ali e por que decidiu chamar a iniciativa de “Café com Propósito”.
O café é vendido por R$ 4. Junto com o copo, Gabriel entrega um pequeno bilhete com QR Code para o pagamento e uma mensagem bíblica. Segundo ele, a proposta vai além da venda.

“Café tem um propósito. Através de como pessoas me ajudaram, eu quero falar de Jesus para as outras pessoas também, que se não fosse Jesus ter transformado minha vida, ter restaurado ela, eu não estaria aqui hoje”, afirmou.
Dependência começou aos 16 anos
Natural de Guarapuava, Gabriel contou que o contato com as drogas começou quando tinha 16 anos. Na época, segundo ele, cantava funk, viajava nos finais de semana e também trabalhava à noite. Foi nesse período que conheceu a cocaína.
Ao relembrar o início da dependência, Gabriel faz questão de não responsabilizar outras pessoas pela decisão que tomou. Segundo ele, experimentar a droga foi uma escolha própria. “Eu fui querer experimentar. E parece que foi amor à primeira vista. Só que não me contaram que durante esses dez anos eu ia sofrer, ia perder a família, ia perder tudo na minha vida”, contou.

Gabriel relata que a dependência trouxe consequências graves. Durante a entrevista, afirmou ter sofrido 12 overdoses e disse que, em uma delas, chegou a ter uma parada que descreve como “óbito” enquanto estava internado em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI).
Ele atribui à fé e à oração da mãe um papel fundamental naquele momento e em todo o processo que posteriormente o levou a buscar uma mudança de vida.
Seis meses em uma casa de recuperação
O processo de recuperação incluiu uma passagem de seis meses por uma casa de recuperação em Guarapuava. Gabriel afirma que concluiu o período proposto pela instituição e que a experiência representou muito mais do que interromper o consumo de drogas.
“Se eu fui lá para a clínica parar de usar droga, eu caí do cavalo. Fui para ter um encontro com Deus. E eu tive esse encontro com Deus”, disse. Atualmente, Gabriel afirma estar há oito meses sem usar drogas.

Ao falar sobre o período de recuperação, ele também destaca pessoas que estiveram ao seu lado nos momentos mais difíceis. Entre elas estão amigos que, segundo Gabriel, ofereceram apoio e incentivo quando ele precisava reconstruir a própria rotina.
A mãe também ocupa um espaço importante em seu relato. Gabriel recorda especialmente um momento em que ela disse não suportar mais vê-lo envolvido com as drogas. “Quando eu pedia socorro, até você ver minha mãe chorando foi muito triste para mim. Quando ela falou para mim que não aguentava me ver mais nas drogas, eu guardei aquele momento para mim”, relembrou.
Ideia de vender café surgiu durante o recomeço
Depois do período de recuperação, veio o desafio de reconstruir a vida e encontrar uma forma de obter renda. A ideia de vender café nas ruas surgiu a partir do incentivo de amigos. Gabriel contou que conheceu Lucas, do Rio Grande do Sul, que também trabalha vendendo café e que, conforme o relato dele, enfrentou problemas relacionados a apostas.
Gabriel também recebeu incentivo dos amigos Gabriel e Gabi para começar a trabalhar com a venda da bebida. Até que decidiu tentar. Na véspera de um dos primeiros dias de trabalho, contou que dormiu na casa dos amigos. Às 5h, eles o ajudaram a acordar e preparar o café que seria levado para as ruas.
Quando conversou com o Atento News, nesta terça-feira (11), Gabriel estava apenas no segundo dia de vendas. “Ontem eu tomei coragem”, resumiu.
Café é vendido durante o fechamento do semáforo
A dinâmica exige rapidez. Gabriel aproveita os momentos em que o semáforo da Avenida Manoel Ribas está fechado para caminhar entre os veículos e oferecer o produto aos motoristas. Quando o trânsito volta a ser liberado, ele deixa a pista. “Tem que ser rápido”, explicou.
Cada cliente recebe o café e um papel com as informações para pagamento. Gabriel contou que trabalha com a confiança de que a pessoa fará o pagamento pelo produto. “Eu acredito numa Guarapuava honesta”, afirmou.
O mesmo papel também carrega a mensagem que ele pretende transmitir com o projeto. Nele, Gabriel colocou um trecho bíblico de Filipenses 3:13, relacionado a deixar para trás o que passou e seguir em frente. Para ele, a mensagem representa a própria trajetória. “Eu continuo avançando e vai ser sempre assim”, disse.
“Café com propósito”
A fé cristã aparece constantemente no relato de Gabriel sobre a recuperação. Ele afirma que pretende utilizar a própria experiência para conversar com outras pessoas que enfrentam dependências. Por isso, define o trabalho como uma missão. “Assim como me ajudaram, através desse café com propósito, eu quero poder ajudar outras pessoas que estão nesse vício também, que não conseguem sair. Não é sobre eu, é sobre ajudar essas pessoas”, afirmou.
Durante a conversa, Gabriel ampliou a reflexão para além da dependência de substâncias e citou também problemas relacionados às apostas. Ele participou recentemente de uma atividade do grupo Legendários, chamada por ele de “Homens de Atitude”. Segundo Gabriel, durante a experiência, compartilhou seu testemunho com outros participantes e considera aquele momento um marco no processo que vive atualmente.
Gabriel contou que conheceu o grupo por intermédio do pastor Márcio, ligado à casa de recuperação onde permaneceu durante seis meses. Ele afirma estar vivendo uma fase completamente diferente daquela que marcou os últimos anos. “Eu acho que estou vivendo o melhor momento da minha vida. Se você tem esse vício, você também pode sair, porque eu consegui”, afirmou.