Paraná está na rota dos tornados? Meteorologista explica sequência de fenômenos no estado

Meteorologista Reinaldo Knab, do Simepar, explica por que o Paraná é uma região favorável à ocorrência de tempestades severas, detalha a confirmação do tornado em Piraí do Sul e esclarece por que os estragos registrados em Candói e Guarapuava ainda não podem ser atribuídos ao mesmo fenômeno.
Meteorologista Reinaldo Knab, do Simepar, durante entrevista ao repórter William Batista, do Atento News, sobre a ocorrência de tornados e tempestades severas no Paraná. Foto: Reprodução/ Atento News
Meteorologista Reinaldo Knab, do Simepar, durante entrevista ao repórter William Batista, do Atento News, sobre a ocorrência de tornados e tempestades severas no Paraná. Foto: Reprodução/ Atento News

A sequência de tornados registrada no Paraná em 2026 e os novos estragos provocados por tempestades no último fim de semana levantam uma pergunta: o estado está em uma região especialmente sujeita à ocorrência desses fenômenos? Em entrevista ao repórter William Batista, do Atento News, na tarde desta terça-feira (11), o meteorologista Reinaldo Knab, do Simepar, explicou que o Paraná está inserido em uma área naturalmente favorável à formação de tempestades severas e que tornados são registrados na região há décadas.

A entrevista ocorreu depois do tornado que atingiu Piraí do Sul, nos Campos Gerais, no sábado (8). Segundo Knab, a ocorrência já está confirmada, embora as análises sobre a intensidade ainda estejam em andamento. A avaliação apresentada pelo meteorologista aponta ventos superiores a 200 km/h e classificação de, pelo menos, categoria F2.

Ao mesmo tempo, o meteorologista fez uma diferenciação importante em relação aos estragos registrados na região central do Paraná. Até o momento, o Simepar não classificou como tornado o fenômeno que provocou danos em Candói e Guarapuava.

Paraná está em região favorável a tempestades severas

Segundo Reinaldo Knab, a ocorrência de tornados no Paraná não é um fenômeno novo. O estado integra uma área geográfica em que as condições atmosféricas podem favorecer a formação de tempestades severas. “Porque a região aqui do Paraná, região Sul, norte da Argentina, Paraguai, é uma região favorável à formação de tempestades severas que levam à formação de tornados”, explicou.

O meteorologista acrescentou que estudos científicos já identificam tornados nessa região há várias décadas. Isso, porém, não significa que toda tempestade severa resulte em tornado.

Knab ressalta justamente o contrário: a maior parte das tempestades severas não produz tornados. Vendavais, granizo, raios e chuva intensa também podem acompanhar esses sistemas e provocar danos significativos.

Por que parece haver mais tornados atualmente?

Um dos pontos abordados durante a entrevista foi a percepção de que tornados estão ocorrendo com maior frequência. Segundo Knab, um fator importante para entender o aumento dos registros é a tecnologia. Há cerca de três décadas, celulares com câmeras e acesso instantâneo à internet não estavam disponíveis como atualmente.

Hoje, um morador consegue registrar uma tempestade e publicar as imagens praticamente em tempo real. Isso também facilita o trabalho dos meteorologistas, que passam a ter acesso a uma quantidade muito maior de registros.

O meteorologista também mencionou fatores climáticos que podem contribuir para ambientes mais favoráveis às tempestades severas.

Segundo ele, existem teorias relacionadas ao aquecimento global, com maior disponibilidade de energia na atmosfera, além da influência de outros fenômenos atmosféricos. Knab afirmou que, neste ano, há fatores adicionais contribuindo para a formação dessas tempestades no Paraná.

Ele ponderou, novamente, que tempestade severa não é sinônimo de tornado.

Tornado de Piraí do Sul teve ventos acima de 200 km/h

O tornado registrado em Piraí do Sul no sábado foi associado a uma supercélula formada na região entre Telêmaco Borba e Tibagi e que posteriormente avançou sobre Piraí do Sul. De acordo com Knab, o fenômeno deixou sinais bastante claros.

“Ele ainda está sob análise, mas a gente já pode dizer que teve ventos acima de duzentos quilômetros por hora. Então foi um tornado pelo menos categoria dois”, afirmou.

O meteorologista explicou que houve danos significativos em estruturas, edificações e vegetação. Também foi possível observar nas imagens o cone de condensação e detritos sendo levantados durante a passagem do fenômeno.

E Candói e Guarapuava? Simepar não confirma tornado

Os estragos registrados em Candói e Guarapuava no mesmo fim de semana também entraram na análise durante a entrevista. Nesse caso, entretanto, Reinaldo Knab foi cauteloso: não existe confirmação de tornado.

Segundo ele, há indícios nas imagens registradas em Candói, mas o Simepar não realizou uma análise de campo no local que permita classificar o fenômeno dessa maneira. “A gente não fez uma análise no campo local. Então, pelas imagens, tem alguns indícios de ter sido tornado, mas pode ser só uma frente de rajada bem intensa, que às vezes pode provocar danos compatíveis com um tornado. Então a gente não vai classificar como um tornado”, explicou.

A explicação é importante porque outros fenômenos meteorológicos também podem provocar destruição expressiva.

Segundo Knab, vendavais com ventos superiores a 100 km/h, rajadas intensas e microexplosões estão entre os eventos capazes de produzir estragos que, visualmente, podem se assemelhar aos provocados por tornados.

Como os meteorologistas confirmam um tornado?

A classificação não depende apenas da dimensão da destruição. Reinaldo explicou que vídeos podem fornecer sinais importantes, principalmente quando mostram a base da nuvem e a rotação de uma nuvem-funil. O radar meteorológico também permite identificar características de rotação, dependendo da localização do fenômeno em relação ao equipamento.

Imagens aéreas são outra ferramenta utilizada. Elas ajudam os especialistas a identificar o padrão deixado pela passagem do tornado. Em uma área de vegetação atingida, por exemplo, árvores e destroços podem aparecer distribuídos em diferentes direções, consequência do movimento de rotação.

O próprio caminho da destruição também é analisado. Segundo Knab, o tornado pode deixar um rastro que não necessariamente segue uma linha reta. A distribuição dos destroços e a forma como construções e vegetação foram danificadas compõem o conjunto de sinais analisados pelos meteorologistas.

É possível prever um tornado?

A previsão específica de um tornado ainda é um desafio. Segundo o meteorologista, é possível identificar antecipadamente regiões com potencial para tempestades severas. A partir daí, os sistemas são acompanhados por ferramentas como radares meteorológicos.

Já a formação propriamente dita de um tornado ocorre em uma escala de tempo muito menor. “A previsibilidade dele é de poucas horas e poucos dias em um ambiente favorável. Para formar o tornado, realmente poucas horas”, explicou.

O Simepar, segundo Knab, vem ampliando a rede de monitoramento, incluindo radares, estações meteorológicas e outras ferramentas. O aprimoramento tecnológico, associado ao treinamento e à experiência das equipes, também melhora a capacidade de acompanhamento de outros fenômenos, como enchentes, inundações, granizo, raios e vendavais.

Fenômeno pode se formar em questão de minutos

Outro aspecto destacado pelo meteorologista é a rapidez. Entre a formação da nuvem, o desenvolvimento do tornado e o momento em que o fenômeno toca o solo, tudo pode acontecer em poucos minutos.

Por isso, o acompanhamento das condições meteorológicas e dos alertas é considerado fundamental. Knab explicou que, embora seja difícil prever com grande antecedência exatamente onde um tornado irá tocar o solo, a meteorologia consegue apontar áreas onde existem condições favoráveis à ocorrência de tempestades capazes de produzir ventos fortes, granizo e chuva intensa em curto espaço de tempo.

Simepar orienta população a acompanhar previsões e alertas

Diante da preocupação provocada pelos últimos episódios, Reinaldo Knab reforçou que a população deve acompanhar diariamente as previsões meteorológicas e, principalmente, os alertas oficiais. O meteorologista explicou que as previsões são atualizadas e que os alertas encaminhados à Defesa Civil podem anteceder situações potencialmente perigosas.

Segundo ele, dependendo do fenômeno, os avisos podem ser enviados com 30 minutos, uma hora ou até mais antecedência. A recomendação ganha importância justamente porque a formação e o deslocamento de tornados podem acontecer rapidamente.

Portanto, o Paraná está em uma região propícia à formação de tempestades severas e os tornados não são fenômenos novos no estado. Ao mesmo tempo, nem todo temporal destrutivo é um tornado e a confirmação depende da análise de diferentes evidências meteorológicas.

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