Rio Bonito do Iguaçu, município de quase 14 mil habitantes localizado no Centro-Sul do Paraná, está prestes a completar um ano de um dos episódios mais graves de sua história. Em 7 de novembro de 2025, um tornado de intensidade F4 atingiu a cidade, deixou seis pessoas mortas e provocou destruição em aproximadamente 90% da área urbana. Passados quase 12 meses, a prefeitura estima que 80% das residências atingidas já tenham sido reconstruídas. No comércio, empresas voltaram a funcionar e um supermercado que registrou prejuízos de R$ 20 milhões prepara a reabertura. Apesar dos avanços, escolas e outros prédios públicos continuam em obras, enquanto cerca de 500 estudantes precisam viajar diariamente para outro município.
O Atento News esteve em Rio Bonito do Iguaçu nesta quarta-feira (28) para acompanhar a recuperação da cidade, que apresenta uma paisagem bastante diferente daquela registrada nos primeiros dias após a tragédia. Durante a visita, a reportagem conversou com moradores, empresários e representantes da administração municipal para verificar os avanços da reconstrução e os desafios que ainda permanecem.
Cerca de 1.300 residências foram atingidas e 80% já foram reconstruídas
Segundo o secretário municipal de Administração, Valdecir Valicki, aproximadamente 1.300 casas foram atingidas pelo tornado, incluindo imóveis completamente destruídos e residências que sofreram danos parciais.
Quase um ano depois, a estimativa da prefeitura é de que cerca de 80% das moradias já tenham sido reconstruídas. O percentual é aproximado, considerando que a recuperação dos imóveis ocorreu de diferentes maneiras, com recursos próprios das famílias e apoio de programas governamentais.
A reconstrução contou com recursos dos governos estadual e federal, além de medidas adotadas pela administração municipal e da participação de voluntários. Entre as iniciativas disponibilizadas às famílias está o Cartão Reconstrução, do Governo do Paraná, destinado à compra de materiais de construção. Os valores foram definidos conforme os danos identificados em cada imóvel, podendo chegar a R$ 50 mil.
A prefeitura também destinou materiais para auxiliar na recuperação das residências atingidas.
Apesar do avanço, ainda existem imóveis em reconstrução e famílias que continuam realizando melhorias nas casas recuperadas. A conclusão dessas moradias permanece entre as etapas necessárias para o restabelecimento completo do município.

Falta de imóveis para aluguel ainda dificulta a chegada de novos moradores
Apesar dos avanços na reconstrução das residências, encontrar uma casa para alugar ainda é um desafio em Rio Bonito do Iguaçu. A dificuldade também afeta pessoas que chegam ao município em busca de emprego, especialmente diante da retomada das atividades comerciais.
O empresário Marcos Vitor Justi, proprietário de uma loja de materiais de construção na cidade, afirma que a oferta de imóveis disponíveis para locação ainda é insuficiente para atender à procura.
“Ainda tem muita falta de moradia, não tem muita casa para alugar. Por exemplo, se quiser vir morar aqui e alugar uma casa, está difícil. Muita gente está vindo trabalhar nos mercados que estão abrindo. Falta residência para morar na cidade”, relatou.
Segundo Marcos, novas construções estão em andamento, inclusive com a participação de construtoras de outras cidades e a implantação de loteamentos. Ele também mencionou a entrega de 37 casas que estavam em construção e foram financiadas pela Caixa Econômica Federal.
Mesmo com essas iniciativas, o empresário considera que a recuperação habitacional ainda exige tempo.
“O maior problema ainda é a moradia. Mesmo vindo o dinheiro do governo, ainda é trabalho de formiga. Não é uma coisa que, de uma hora para outra, levanta e volta à normalidade”, afirmou.
Supermercado destruído pelo tornado teve prejuízo de R$ 20 milhões e prepara reabertura
Entre os estabelecimentos comerciais atingidos está um supermercado administrado pela empresária Michellen Viau Vosnei e sua família, que atua no setor há 25 anos.

O imóvel foi completamente destruído pelo tornado. No momento da passagem do fenômeno, Michellen estava com o pai na residência da família, localizada sobre o supermercado, em uma edificação de dois pavimentos.
Segundo a empresária, o prejuízo chegou a aproximadamente R$ 20 milhões. Como a maior parte das perdas não estava coberta por seguro, a família precisou buscar recursos para reconstruir o estabelecimento e retomar as atividades. Entre os financiamentos obtidos está um empréstimo de R$ 500 mil pelo Fomento Paraná, com juros zero, além de outra operação junto ao Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE).
Michellen explicou que o financiamento pelo BRDE foi liberado em setembro e que a obtenção do crédito envolveu despesas de aproximadamente R$ 150 mil.
Depois de quase um ano de reconstrução, a reabertura do supermercado está programada para 5 de novembro de 2026, dois dias antes do primeiro aniversário do tornado. Além dos investimentos na estrutura, a empresa enfrenta dificuldades para completar o quadro de funcionários. Até a entrevista desta quarta-feira, 30 trabalhadores haviam sido contratados, mas ainda existiam 20 vagas abertas, principalmente para açougueiros e operadores de caixa.
A empresária afirmou que não consegue identificar uma causa específica para a dificuldade de contratação. Segundo ela, após o tornado, algumas pessoas deixaram o município, enquanto outras chegaram à cidade em busca de oportunidades.
A proximidade da reabertura representa uma nova etapa para a família, depois de meses dedicados à recuperação do negócio.
“Não é fácil, porque é um ano de trabalho, um ano de esperança. Tem dias que você está um pouco mais para baixo, tem dias que você está um pouco mais animado, mas não é fácil. Mas, assim, estamos na reta final. Agora estamos animados, ansiosos para reabrir”, relatou Michellen.
Mais de 200 empresas receberam auxílio financeiro para retomar as atividades
Além da reconstrução realizada pelos próprios empresários, o município contou com medidas de apoio financeiro ao setor comercial.
De acordo com o secretário Valdecir Valicki, mais de 200 empresas foram beneficiadas com recursos destinados à recuperação das atividades econômicas. Ao todo, foram repassados aproximadamente R$ 10 milhões em subvenções, conforme informações da administração municipal. Os recursos tiveram como finalidade auxiliar estabelecimentos atingidos pelo tornado e contribuir para a retomada do comércio local.
Segundo a prefeitura, entre os três supermercados de maior porte afetados pela tragédia, dois já haviam retomado as atividades até o momento da entrevista. O terceiro é o estabelecimento administrado pela família de Michellen, que se prepara para reabrir.
Escolas, rodoviária, APAE e outros prédios públicos ainda estão em reconstrução
Enquanto grande parte das residências foi recuperada e estabelecimentos comerciais voltaram a funcionar, a reconstrução das estruturas públicas segue em andamento.
Segundo o secretário municipal de Administração, unidades escolares, a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE), o Centro Cultural, a rodoviária, a casa mortuária e o Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) estão entre os prédios que ainda não tiveram as obras concluídas.
Valdecir Valicki explicou que os procedimentos técnicos e burocráticos necessários para a elaboração de projetos e a execução dos trabalhos contribuíram para a demora na recuperação desses espaços.
A previsão da prefeitura é de que parte das estruturas seja entregue somente no próximo ano.
A situação demonstra que a recuperação do município não ocorreu no mesmo ritmo em todos os setores. Enquanto moradias e estabelecimentos comerciais avançaram na reconstrução, parte dos serviços públicos ainda depende da conclusão de obras.

Cerca de 500 estudantes ainda precisam viajar diariamente para Laranjeiras do Sul
Na educação, os efeitos do tornado continuam interferindo diretamente na rotina de centenas de famílias.
Segundo a prefeitura, aproximadamente 500 alunos são transportados diariamente para Laranjeiras do Sul, município vizinho, porque a unidade escolar onde estudavam ainda não foi recuperada.
O deslocamento é necessário para garantir a continuidade das aulas enquanto a estrutura permanece indisponível.
Outra unidade de ensino atingida pelo tornado conseguiu retomar as atividades em espaços adaptados.
A recuperação definitiva das escolas está entre os desafios que ainda precisam ser superados pela administração municipal.
Prefeitura não consegue mensurar quantos moradores deixaram Rio Bonito do Iguaçu
Além dos danos materiais, o tornado provocou mudanças na rotina da população e levou famílias a buscar alternativas de moradia durante o período de reconstrução.
Questionado pelo Atento News sobre a possível saída de moradores após a tragédia, o secretário Valdecir Valicki afirmou que ainda não existem dados suficientes para determinar se houve uma redução permanente da população.
“Não dá para mensurar se houve êxodo ou não. Mas o que a gente pode ver é que a gente já tem uma cidade quase que reconstruída”, afirmou.
O secretário também destacou a participação de voluntários na recuperação de Rio Bonito do Iguaçu, especialmente nos primeiros meses após o desastre.
Memorial em homenagem às seis vítimas será realizado em 7 de novembro
Para marcar o primeiro aniversário do tornado, a Prefeitura de Rio Bonito do Iguaçu realizará o Memorial 7 de Novembro – Um Ano do Tornado, no sábado, 7 de novembro de 2026, às 19h.
A cerimônia acontecerá no Espaço do Memorial, localizado na Avenida XV de Novembro, em Rio Bonito do Iguaçu.
Segundo a administração municipal, o encontro será dedicado à memória das seis pessoas que morreram na tragédia, ao reconhecimento dos voluntários e instituições que prestaram ajuda e à reflexão sobre o processo de reconstrução.
Em comunicado, a prefeitura informou que a cerimônia será um momento de memória, homenagem e gratidão, com o objetivo de reconhecer a solidariedade e a mobilização da comunidade diante dos prejuízos provocados pelo tornado.
A programação também pretende reunir moradores e representantes de diferentes setores que participaram dos trabalhos de assistência e recuperação do município.

Igreja que permaneceu de pé durante o tornado tornou-se ponto de apoio à população
Um dos locais que marcaram os primeiros dias após a tragédia foi a Igreja de Santo Antônio de Pádua, na região central de Rio Bonito do Iguaçu.
No momento do tornado, centenas de pessoas participavam de uma celebração religiosa dentro do templo. Enquanto os ventos destruíam grande parte da cidade, a estrutura da igreja permaneceu de pé.
Nos dias seguintes, o local se tornou um ponto de apoio à população, recebendo doações, voluntários e equipes envolvidas nos trabalhos de assistência e resgate.
Nas paredes, cartas e desenhos produzidos por crianças registravam os sentimentos de quem também havia vivido os momentos de destruição.
Em 28 de dezembro, a igreja foi elevada à condição de santuário.