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Após novo desmoronamento, reportagem vai à Serra da Esperança, mostra a situação no km 312 e explica por que o trecho da BR-277 é tão instável

Equipe acompanhou os trabalhos de limpeza nesta sexta-feira, encontrou trânsito liberado com restrições e traz explicação técnica sobre a fragilidade geológica da Serra.
  • Redação
  • Destaques, Guarapuava, Últimas notícias
  • 09/01/2026
  • 15:05
Foto: Cleo Ferreira/ Atento News

A reportagem do Atento News esteve na Serra da Esperança, em Guarapuava, na manhã desta sexta-feira (9), para acompanhar de perto a situação no km 312 da BR-277 após o desmoronamento de rochas registrado na noite de quarta-feira (7). Ao percorrer o trecho, a equipe constatou que o tráfego seguia liberado nos dois sentidos da pista, porém com sinalização reforçada e cones posicionados na altura do ponto atingido, onde trabalhadores da EPR Iguaçu atuavam na limpeza da lateral do asfalto e realizavam manobras pontuais durante o serviço.

No local, o cenário mostrava a operação em andamento. Em um dos lados da rodovia, funcionários trabalhavam para retirar resíduos e ajustar a sinalização ao longo do trecho. Do outro lado, ao lado do asfalto, duas grandes pedras estavam sendo quebradas com o auxílio de uma escavadeira, procedimento que, segundo a Polícia Rodoviária Federal (PRF), é necessário para facilitar a limpeza e permitir a retirada do material com mais segurança.

A reportagem também verificou a presença de um geólogo da concessionária no trecho. Não houve gravação de entrevista. Em contato com a assessoria da EPR Iguaçu, o Atento News questionou se já existe um levantamento prévio dos estragos e quais seriam as ações futuras previstas para o ponto afetado. A concessionária informou que os levantamentos e a avaliação técnica ainda estão em andamento.

Foto: Cleo Ferreira/ Atento News

Desdobramento após operação de limpeza

O cenário encontrado nesta sexta-feira é um desdobramento do trabalho iniciado após o desmoronamento. Como o Atento News já havia noticiado, durante toda a tarde de quinta-feira (8) equipes da concessionária realizaram limpeza com maquinário pesado no km 312 para a remoção das rochas que haviam caído e permanecido no acostamento.

Na ocasião, a EPR explicou que, apesar do avanço, algumas rochas de grande porte ainda não poderiam ser retiradas de imediato, pois precisariam ser quebradas para viabilizar a remoção com segurança, exatamente o serviço observado pela reportagem no trecho nesta manhã.

Foto: Cleo Ferreira/ Atento News

Ainda na quinta-feira (8), às 19h40, a PRF informou que equipes da concessionária permaneceriam no local durante toda a noite em monitoramento contínuo, enquanto a própria Polícia Rodoviária Federal faria verificações periódicas no ponto. A orientação aos motoristas foi de atenção redobrada ao trafegar pela serra, com respeito à sinalização, redução de velocidade e manutenção de distância segura dos demais veículos.

O que aconteceu na noite do desmoronamento

O deslizamento de pedras ocorreu por volta das 23h de quarta-feira (7), no km 312 da BR-277, na Serra da Esperança. Por segurança, o trecho chegou a operar em sistema de pare e siga até que equipes técnicas pudessem avaliar o local e iniciar os primeiros trabalhos. O tráfego foi totalmente liberado por volta das 2h20 da madrugada de quinta-feira (8), com acompanhamento da PRF e monitoramento da concessionária.

Durante a madrugada, técnicos da EPR analisaram o solo, as rochas e as condições climáticas e apontaram que, naquele momento, havia condições seguras para o trânsito, desde que mantidas medidas preventivas, como isolamento de faixa e sinalização com cones, segundo a PRF.

Por que a Serra da Esperança é tão instável? O que explica o especialista

Em novembro de 2024, meses antes do novo desmoronamento registrado agora no km 312 da BR-277, o repórter William Batista esteve na Serra da Esperança para entender, com apoio técnico, por que o trecho sofre recorrentes episódios de quedas de rochas e deslizamentos.

Foto: Cleo Ferreira/ Atento News

Na ocasião, o professor Adalto Gonçalves de Lima, do Departamento de Geografia da Unicentro, especialista em Geociências, com ênfase em geomorfologia, explicou em detalhes as características naturais da serra e os fatores que tornam a região especialmente vulnerável a esse tipo de ocorrência.

Segundo o professor, grande parte da Serra da Esperança é formada por arenitos, um tipo de rocha constituído basicamente por areia compactada e cimentada ao longo de milhões de anos. Apesar de, visualmente, parecer uma rocha firme e resistente, o arenito tem uma constituição interna frágil.

“Ela só aparenta ser firme. Quando começa a ser intemperizada, alterada com o tempo e com a infiltração de água, fica bastante frágil e se desagrega com facilidade”, explicou o geógrafo.

Na prática, isso significa que a água da chuva penetra na rocha, reduz a resistência do material e facilita o processo de fragmentação. Esse enfraquecimento interno faz com que blocos aparentemente sólidos possam, de repente, se soltar e deslizar, exatamente como ocorre nos desmoronamentos registrados na rodovia.

Dois tipos de rocha, dois comportamentos muito diferentes

O professor também explicou que a Serra da Esperança é uma área de transição geológica entre o Terceiro e o Segundo Planalto do Paraná. Isso faz com que o maciço seja composto por dois tipos principais de rocha:

Na parte superior, há basalto, uma rocha de origem vulcânica, muito mais resistente e comum na construção civil.

Foto: Cleo Ferreira/ Atento News

Já na escarpa da serra, justamente onde a rodovia foi aberta, predomina o arenito, que é bem mais frágil.

Essa combinação cria uma situação delicada: uma camada mais pesada e resistente sobre uma base mais fraca e suscetível à erosão e à infiltração de água.

O especialista ressaltou a importância do acompanhamento das condições geológicas em tempo real, com atenção aos índices de chuva na área, justamente por se tratar de um trecho sensível e, ao mesmo tempo, fundamental para a circulação de pessoas e mercadorias.

Fraturas, raízes e alívio de tensão: um processo contínuo

Além da composição da rocha, o especialista apontou outro fator importante: o fraturamento natural do maciço rochoso.

Segundo ele, a própria escarpa da serra passa, ao longo do tempo, por um processo chamado de alívio de tensão, que faz com que a rocha vá se fraturando paralelamente ao corte da estrada.

Essas fraturas:

  • Facilitam a infiltração de água
  • Servem de caminho para raízes de plantas
  • Aceleram o processo de desagregação do material

“As raízes exploram justamente essas fraturas, e isso contribui ainda mais para o desplacamento e o deslizamento do material”, explicou.

Ou seja, não se trata de um evento isolado, mas de um processo geológico contínuo, que vai enfraquecendo a estrutura da serra ao longo dos anos.

Obras previstas

Em setembro do ano passado, a concessionária informou que obras de duplicação da Serra da Esperança estão previstas em contrato e devem ser entregues até o quinto ano da concessão, ou seja, até o final do primeiro semestre de 2030. Segundo a própria EPR Iguaçu afirmou na época, os projetos ainda estavam em fase inicial e não havia definição de traçado nem do tipo de obras que poderão ser executadas, como viadutos ou túneis. A concessionária também destacou a fragilidade geológica da região e a necessidade de licenciamento ambiental cuidadoso por se tratar de área de proteção ambiental.

Por William Batista e Cleo Ferreira

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