Em capacidade similar à de crianças, cão aprende palavras ouvindo pessoas conversarem, diz estudo

Situação se restringe a cachorros com facilidade para vocabulário; a grande maioria dos animais tropeça no teste, aponta estudo.
Cachorro observando brinquedos durante estudo sobre cães que aprendem palavras ouvindo humanos
Foto: Veronica Suen/ Divulgação/ Via Folha de São Paulo

Alguns cães conseguem aprender o nome de objetos apenas ouvindo pessoas conversarem entre si, mesmo quando ninguém fala diretamente com eles. É o que mostra um estudo citado em reportagem da Folha de S.Paulo, que sugere que, nesse aspecto, esses animais apresentam uma capacidade parecida com a de crianças pequenas, na fase inicial de aquisição da linguagem.

A pesquisa foi conduzida por Shany Dror e sua equipe, da Universidade de Medicina Veterinária de Viena, e os resultados foram publicados no periódico científico Science. A ideia dos pesquisadores foi testar se cães com facilidade especial para aprender palavras conseguiriam ampliar o “vocabulário” apenas ouvindo conversas humanas, sem treino direto.

Para isso, foi montada uma série de experimentos em etapas. Primeiro, os cientistas usaram o método tradicional: o tutor mostrava ao cachorro um brinquedo novo, dizia o nome do objeto — por exemplo, “esse é o esquilo” — e brincava com ele por alguns minutos. Depois, o animal ainda ficava um tempo sozinho com o brinquedo. Esse processo era repetido duas vezes por dia, ao longo de quatro dias.

No experimento, os cães considerados “talentosos” acertaram o objeto correto em mais de 90% dos testes quando houve interação direta e em mais de 80% quando aprenderam apenas ouvindo pessoas conversarem.

Durante esse período, o cachorro também recebia um segundo brinquedo novo. Ao final, os dois objetos recém-apresentados eram misturados com outros nove já conhecidos, e o cão precisava buscar um deles apenas pelo nome dito pelo tutor.

Em seguida, os pesquisadores repetiram todo o teste em uma segunda versão, chamada de “entreouvida”. Nesse caso, o cachorro não era treinado diretamente. Ele apenas ouvia duas pessoas conversando entre si sobre os brinquedos, com frases como “olhe, esse é o esquilo” ou “essa é a galinha”, enquanto os objetos eram trocados de mão. O animal apenas observava e escutava.

Os resultados chamaram atenção. Entre os dez cães considerados “talentosos”, a escolha correta do objeto aconteceu em mais de 90% dos testes quando houve interação direta com o tutor e em mais de 80% dos testes quando o aprendizado ocorreu apenas ouvindo a conversa entre humanos. Quando erravam, normalmente traziam o outro brinquedo novo, e não um dos antigos, o que indica que realmente haviam aprendido algo sobre os nomes.

O mesmo experimento foi feito com um grupo de dez cães considerados comuns, todos da raça border collie. Mesmo treinados com o mesmo protocolo, eles não conseguiram diferenciar o nome dos objetos e, no máximo, escolhiam qualquer um dos brinquedos novos.

Segundo a reportagem da Folha, os resultados só foram significativos no pequeno grupo conhecido como “Aprendizes de Palavras Talentosos”, que inclui cães das raças labrador e border collie. Esses animais, além de entender comandos simples como “senta” e “dá a patinha”, conseguem formar vocabulários grandes, com centenas de nomes de objetos, muitas vezes sem treinamento formal, apenas em interações normais com os tutores.

Os pesquisadores também testaram a memória desses cães. Duas semanas depois, verificaram se eles ainda se lembravam dos nomes aprendidos, e constataram que a associação entre palavra e objeto havia sido mantida.

O que explica essa capacidade especial ainda não está totalmente claro. Uma das hipóteses levantadas é que esses cães sejam especialmente atentos ao comportamento e às intenções humanas, o que facilitaria esse tipo de aprendizado por observação e escuta.

Informações da Folha de São Paulo. Reportagem atualizada às 17h09.

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