O ex-vereador de Guarapuava Alessandro Jorge Oreiko, conhecido como Sidão Oreiko, a esposa Paola Santos Fernandes e o irmão dele, Klawrence Oreiko, foram condenados em primeira instância no processo que apura suspeitas de “rachadinha” no gabinete parlamentar e outros crimes associados.
Sidão foi condenado a 11 anos, 6 meses e 9 dias de reclusão, Paola a 9 anos, 5 meses e 22 dias, e Klawrence a 4 anos, 7 meses e 6 dias. A decisão consta em um documento de 63 páginas do Poder Judiciário, da 1ª Vara Criminal de Guarapuava, ao qual o Atento News teve acesso nesta segunda-feira (19), referente à sentença assinada em 9 de janeiro de 2026 pela juíza Érika Luiza Dias Pinto Taborda.
O regime inicial fixado na sentença é fechado para Sidão Oreiko e Paola Santos Fernandes e semiaberto para Klawrence Oreiko. A defesa, no entanto, afirma que a decisão não produz efeitos imediatos e que irá recorrer.
O advogado Marinaldo Rattes, que representa os três, disse que a defesa vai apresentar recurso de apelação ao Tribunal de Justiça do Paraná e que a condenação permanece suspensa até o julgamento definitivo do caso. Segundo ele, “a sentença não produz efeitos imediatos” e os réus “só darão início ao cumprimento da pena após o trânsito em julgado”, não sendo correto, neste momento, tratá-los como culpados definitivos.
A sentença é o desfecho, em primeira instância, de um caso que começou a ser investigado ainda em 2021 e que veio a público em 2022, quando o Ministério Público denunciou o então vereador por liderar um esquema de devolução de parte dos salários de servidores lotados em seu gabinete e de pessoas indicadas por ele para cargos no Executivo municipal.
Como surgiu o caso
Segundo a denúncia oferecida pelo Ministério Público do Paraná (MPPR) em outubro de 2022, a investigação apontou que Sidão Oreiko, com a participação direta da esposa e do irmão, teria montado um sistema para exigir parte dos salários de servidores. Os valores, conforme o MPPR, eram repassados em dinheiro, por Pix ou até em forma de cestas básicas e alimentos, sempre sob ameaça de exoneração.

Ainda conforme a acusação, pelo menos duas servidoras foram constrangidas a fazer pagamentos por ao menos 14 vezes entre 2021 e 2022. O valor comprovado inicialmente na denúncia era de R$ 2.060, mas o MPPR sustentou que o esquema era mais amplo e estruturado.
Na época, a esposa do vereador era apontada como a principal responsável por pressionar as vítimas, cobrar os repasses e orientar para que ninguém comentasse o assunto. Já o irmão, Klawrence, teria emprestado a própria conta bancária para receber os valores, numa tentativa de dissimular o verdadeiro destino do dinheiro.
Sidão Oreiko foi eleito vereador em 2020 pelo antigo Democratas (DEM), com 932 votos, sendo o 17º vereador mais votado naquela eleição municipal em Guarapuava.
Operação, denúncia e afastamento do cargo
Em maio de 2022, o caso ganhou força com uma operação do Ministério Público e da Polícia Civil, que cumpriu mandados de busca e apreensão, inclusive na Câmara de Guarapuava. Em novembro daquele mesmo ano, por decisão judicial, Sidão Oreiko foi afastado do cargo de vereador, e ele, a esposa e o irmão também ficaram proibidos de acessar as dependências da Câmara.

Na ocasião, o MPPR pediu ainda que, além das penas criminais, os denunciados fossem condenados a devolver os valores recebidos no esquema, com correção monetária e juros.
Apesar de o Ministério Público, na época da denúncia, ter pedido a devolução dos valores supostamente obtidos no esquema, a sentença não fixou nenhum valor mínimo de indenização ou ressarcimento. A juíza registrou que, diante da ausência de pedido específico e de provas produzidas para esse fim em contraditório, deixou de estabelecer reparação financeira nesta fase do processo.
O que a Justiça analisou no processo
Na sentença assinada no último dia 9, a juíza faz uma análise detalhada de cada fato narrado na denúncia, de cada depoimento, das provas documentais, dos extratos bancários, das mensagens e do conjunto da investigação.
O resultado foi uma condenação parcial: nem tudo o que o MPPR pediu foi aceito, mas uma parte relevante das acusações foi considerada comprovada.
Quais crimes foram reconhecidos
A Justiça condenou os três por associação criminosa. Sidão e Paola por concussão (exigir vantagem indevida em razão do cargo) em continuidade delitiva. E os três foram condenados por lavagem de dinheiro, também em continuidade delitiva, em parte dos fatos.
Por outro lado, a sentença absolveu os réus em alguns pontos específicos da denúncia, inclusive afastando uma das imputações de coação e um dos fatos narrados pelo MPPR, por entender que não houve prova suficiente ou que a conduta não se enquadrava no tipo penal.
Como a Justiça entendeu que o esquema funcionava
De acordo com a sentença, ficou comprovado que o grupo atuava de forma organizada e estável, com divisão de tarefas:
Sidão, na condição de vereador, detinha o poder de nomear e exonerar; Paola atuava como intermediadora e cobradora dos valores; Klawrence era utilizado como destinatário formal de parte do dinheiro, para ocultar a origem e o destino real dos recursos.
A juíza destacou que o esquema se aproveitava da vulnerabilidade das vítimas, que dependiam dos cargos para sobreviver e, por isso, acabavam cedendo às exigências.
Tempo das penas
Sidão Oreiko: 11 anos, 6 meses e 9 dias de reclusão + 143 dias-multa (regime inicial fechado); Paola Santos Fernandes: 9 anos, 5 meses e 22 dias de reclusão + 78 dias-multa (regime inicial fechado); Klawrence Oreiko: 4 anos, 7 meses e 6 dias de reclusão + 12 dias-multa (regime inicial semiaberto)
A juíza também afastou a possibilidade de substituir as penas por medidas alternativas ou conceder suspensão condicional da pena, devido ao tamanho das condenações.
Por que eles não foram presos
Apesar da condenação, a sentença garante aos três o direito de recorrer em liberdade. A magistrada entendeu que eles:
Responderam soltos durante todo o processo; Não descumpriram medidas cautelares; Não houve fato novo que justificasse prisão preventiva
Além disso, a própria decisão deixa claro que a pena só pode ser executada após o trânsito em julgado, ou seja, quando não couber mais nenhum recurso.
O que diz a defesa
Ao Atento News, o advogado criminalista Marinaldo Rattes, que representa Sidão, Paola e Klawrence, afirmou que a sentença não produz efeitos imediatos e que a defesa irá interpor recurso de apelação ao Tribunal de Justiça do Paraná.
Segundo ele, enquanto o caso estiver sendo discutido nas instâncias superiores, não é possível tratar os condenados em primeira instância como culpados definitivos, já que o processo ainda não está encerrado.
Um caso que ainda não terminou
Com a publicação da sentença, o processo entra agora em uma nova fase, que é a dos recursos. O Tribunal de Justiça do Paraná ainda irá reavaliar a condenação, a interpretação das provas e a dosimetria das penas.
Até que isso aconteça, Sidão Oreiko, Paola Santos Fernandes e Klawrence Oreiko continuam respondendo em liberdade.
Por William Batista.
Reportagem atualizada às 22h18.