Audiência de instrução dura mais de sete horas e caso de Diego Lenon entra na reta final antes de decisão sobre júri popular

Sessão realizada na última sexta-feira (23) ouviu todas as testemunhas e encerrou a fase de instrução. Defesa afirma que ainda existem provas pendentes no processo e explica quais são os próximos passos até a decisão do juiz sobre levar ou não pai e filho a julgamento pelo Tribunal do Júri.
Fotos de Gustavo Mendes Scheller e Nery Scheller divulgadas pela Polícia Civil no caso da morte de Diego Lenon em Guarapuava
Gustavo Mendes Scheller e Nery Scheller são réus no processo que apura a morte de Diego Lenon Kuss da Silva, em Guarapuava. Foto ilustrativa/Arquivo: Fórum de Guarapuava, de onde a audiência foi coordenada. Os réus participaram por videoconferência.

A audiência de instrução e julgamento que apura a morte de Diego Lenon Kuss da Silva marcou uma etapa decisiva no processo que envolve Gustavo Mendes Scheller e seu pai, Nery Scheller. A sessão ocorreu na última sexta-feira, dia 23, e se estendeu por mais de sete horas, começando às 13h30 e seguindo até próximo das 20h, encerrando a fase conhecida como “sumário da culpa”, que antecede a decisão judicial sobre a pronúncia ou não dos réus ao Tribunal do Júri. O processo apura o assassinato de Diego, ocorrido entre os dias 23 e 24 de agosto de 2025 em Guarapuava, crime pelo qual pai e filho são denunciados por homicídio qualificado e ocultação de cadáver, conforme a acusação do Ministério Público.

Reportagem apurou

Na manhã desta segunda-feira (26), a reportagem do Atento News conversou com Thiago Rodrigues, um dos advogados de defesa. Segundo ele, a audiência foi dedicada principalmente à oitiva das testemunhas de acusação e de defesa. Todas foram ouvidas, e, ao final, os dois réus optaram por permanecer em silêncio.

De acordo com o advogado, um dos pontos que chamou atenção durante a audiência foi a mudança no teor do depoimento de uma testemunha considerada importante[ no contexto do caso. Em juízo, essa pessoa afirmou que não presenciou os fatos, dizendo apenas que ouviu uma discussão, sem detalhar o ocorrido, diferentemente do que havia sido registrado anteriormente em sede policial.

Thiago Rodrigues explicou que a instrução marca o encerramento da fase em que se colhem provas e depoimentos para que o juiz possa decidir se o caso será levado a julgamento pelo Tribunal do Júri ou se terá outro desfecho jurídico. Ele destacou que, embora a instrução tenha sido formalmente encerrada, ainda existem elementos que, segundo a defesa, não foram devidamente juntados aos autos.

Um dos exemplos citados é um exame de luminol realizado em um veículo para verificar a presença de sangue. Conforme relatado pelo advogado, o próprio perito que atuou na análise do local afirmou, em audiência, que o resultado desse exame já existia, mas não constava no processo. A defesa havia pedido que todos os elementos de prova fossem apresentados antes do encerramento da instrução, mas os pedidos foram indeferidos pelo juízo, e a audiência foi mantida mesmo assim.

Segundo o advogado, isso abre a possibilidade de que, quando esses elementos forem finalmente incorporados ao processo, a defesa busque novos esclarecimentos, inclusive com a oitiva de profissionais técnicos que participaram das etapas da investigação.

Sequência do caso

Agora, o processo entra na fase das alegações finais, que são as últimas manifestações formais da acusação e da defesa antes da decisão judicial. Primeiro, o Ministério Público apresenta suas alegações; depois, a defesa faz o mesmo. Só então o juiz decide se pronuncia os réus para julgamento pelo Tribunal do Júri, se desclassifica o crime ou se entende que o caso deve ser julgado por um juiz togado, conforme a interpretação que fizer dos fatos.

Thiago Rodrigues afirmou que, na visão dele, ainda existem elementos no processo que apontam para a possibilidade de que o caso seja encaminhado ao Tribunal do Júri, onde seria julgado pela população de Guarapuava. No entanto, a decisão final caberá ao magistrado após analisar as manifestações das partes.

Atualmente, Gustavo Mendes Scheller e Nery Scheller permanecem presos no município de Pinhão, onde estão desde setembro do ano passado, quando foram localizados e presos após a representação da Polícia Civil.

Defesa contesta versão policial

O advogado também comentou um ponto que, segundo ele, será discutido pela defesa no momento oportuno: a forma como parte da investigação foi conduzida. Ele questiona, por exemplo, a narrativa de que os dois teriam sido considerados foragidos logo após os fatos. Segundo ele, naquele momento inicial não havia mandado de prisão expedido contra pai e filho, o que, na avaliação da defesa, descaracterizaria a condição de foragidos naquele período específico. Esse tema, de acordo com Thiago Rodrigues, será abordado no curso do processo, especialmente no que diz respeito ao respeito ao rito do processo penal e à cadeia de custódia das provas.

Na última sexta-feira, após o encerramento da audiência, o advogado também divulgou um vídeo à reportagem no qual classificou a sessão como “extremamente cansativa” e “extremamente exaustiva”. Ele afirmou que a instrução, que apura a morte de Diego Lenon, chegou ao fim e que, na visão da defesa, foram colhidos elementos importantes de prova. No vídeo, declarou ainda acreditar que “a população de Guarapuava dará a resposta justa a este caso, sem mais nem menos”, e concluiu: “A cada um aquilo que lhe é de direito”.

Entenda mais sobre o caso

O caso ganhou grande repercussão pública desde setembro do ano passado, quando a Polícia Civil do Paraná divulgou as fotos de Gustavo e Nery, então apontados como foragidos. Na ocasião, a PCPR informou que os dois eram suspeitos de homicídio qualificado e ocultação de cadáver, crimes ocorridos no bairro Industrial, em Guarapuava.

Segundo a versão divulgada pela polícia à época, o crime teria ocorrido no dia 24 de agosto, durante uma briga de bar que vitimou Diego Lenon Kuss da Silva. De acordo com o delegado Bruno Miranda Maciozek, vítima e suspeitos não se conheciam anteriormente. Ainda conforme essa narrativa, Diego teria entrado no carro dos dois, houve uma discussão nas proximidades, e, depois, o crime foi cometido. O corpo, segundo a polícia, teria sido levado e deixado em uma área rural.

Após a identificação dos suspeitos, a Polícia Civil representou pelas prisões, que foram autorizadas pela Justiça. Como eles não foram localizados de imediato, a polícia divulgou as imagens e pediu a colaboração da população para encontrá-los.

Toda essa investigação resultou na denúncia formal apresentada pelo Ministério Público em 21 de outubro de 2025. No documento, o MP acusa Gustavo Mendes Scheller e Nery Scheller de, em comunhão de esforços e com intenção de matar, terem assassinado Diego Lenon Kuss da Silva entre a noite do dia 23 e a tarde do dia 24 de agosto de 2025, em Guarapuava.

De acordo com a denúncia, a vítima teria sido atacada com instrumento perfurocortante e também atingida por golpes de ação contundente, sofrendo diversas lesões, entre elas ferimentos na cabeça, pescoço, orelha, mãos e outras partes do corpo, além de sinais de defesa. O laudo de necropsia citado no processo aponta que a causa da morte foi trauma crânio encefálico, com hemorragia intracraniana difusa.

O Ministério Público também sustenta que o crime foi cometido por meio cruel, em razão da multiplicidade e da brutalidade dos golpes, e mediante dissimulação, já que, segundo a acusação, os denunciados teriam ocultado a real intenção ao convencer a vítima a entrar no carro antes de matá-la.

Ainda conforme a denúncia, após o homicídio, pai e filho teriam ocultado o cadáver de Diego Lenon à margem da Estrada do Lajeado, no Distrito da Palmeirinha, em uma área rural, erma e sem iluminação pública, com o objetivo de dificultar a localização e a identificação da vítima. Por isso, além do homicídio qualificado, eles também foram denunciados pelo crime de ocultação de cadáver.

O Ministério Público pede, inclusive, que, em caso de condenação, os dois sejam obrigados a pagar indenização por danos morais à família da vítima, no valor mínimo de R$ 20 mil.

Com o encerramento da audiência de instrução, o processo agora entra em sua fase decisiva. Depois das alegações finais da acusação e da defesa, caberá ao juiz decidir se Gustavo Mendes Scheller e Nery Scheller serão pronunciados e levados a julgamento pelo Tribunal do Júri ou se haverá outro enquadramento jurídico para o caso.

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