“Não é momento de julgamento, mas é momento de oração”, diz Dom Amilton em missa na Catedral

Bispo diocesano falou aos fiéis durante missa na Catedral Nossa Senhora de Belém, pediu perdão à comunidade católica, confirmou o afastamento do pároco para investigação prévia e fez apelo para que os fiéis permaneçam na Igreja enquanto a Polícia Civil apura suposta extorsão.
Dom Amilton se pronunciou durante missa na Catedral Nossa Senhora de Belém e pediu perdão à comunidade católica. Foto: Reprodução/Transmissão
Dom Amilton se pronunciou durante missa na Catedral Nossa Senhora de Belém e pediu perdão à comunidade católica. Foto de arquivo: Reprodução/Diocese de Guarapuava

O bispo diocesano de Guarapuava, Dom Amilton Manoel da Silva, pediu perdão à comunidade católica, confirmou o afastamento do pároco da Catedral Nossa Senhora de Belém e afirmou que “não é momento de julgamento, mas é momento de oração” durante missa celebrada na noite de ontem (2). A declaração, feita na transmissão ao vivo da celebração e cujo trecho circula nas redes sociais, ocorreu em meio à investigação conduzida pela Polícia Civil do Paraná (PCPR), que apura suposta prática de extorsão relacionada ao caso envolvendo o padre Jean Patrik Soares.

Durante a missa, Dom Amilton reconheceu a gravidade do momento, afirmou estar com o “coração partido” e reforçou que o sacerdote permanecerá afastado enquanto ocorre investigação prévia no âmbito da Igreja.

A Diocese de Guarapuava já havia anunciado, na última sexta-feira (28), o afastamento do padre das funções pastorais e a abertura de investigação prévia com base no Código de Direito Canônico, que é o procedimento interno destinado a apurar os fatos antes de eventual adoção de medidas disciplinares.

Bispo durante a missa desta segunda-feira (2). Foto: Reprodução/ Redes Sociais

Íntegra do pronunciamento de Dom Amilton

“Gostaria de dizer algo e gostaria que vocês se assentassem. É breve, mas é necessário. Gostaria de não dizer, mas o meu coração está partido e sangra. Como bispo, eu tenho a missão de estar próximo dos padres, de ser pai, irmão e cuidar dos padres antes de cuidar do povo. Mas também, como bispo, eu represento diretamente a instituição Igreja, e a instituição Igreja tem as suas normas. Nós precisamos caminhar nessa organização de mais de 2000 anos.

Em vista do nosso pároco e cura desta Catedral, cujo nome, a vida e o ministério sacerdotal foram envolvidos em escândalo moral e em crime de extorsão, e que circulou e circula pelas redes sociais, algumas providências foram tomadas. Espero que todos compreendam: este não é momento de julgamento, mas é momento de oração, porque nós somos cristãos. E Jesus o deixou muito claro: ‘quem não tem pecado, atire a primeira pedra’.

Eu quero, em nome da Igreja, pedir perdão a vocês, a toda a comunidade católica, que nos interessa, porque vocês foram escandalizados. Peço, do fundo do coração, perdão.

E faço três pedidos. Primeiro: rezem pelo padre. Ele precisa, e todos os padres precisam. Segundo: vocês não estão na Igreja por causa do bispo, do Papa, dos padres ou das pessoas. Tenho certeza de que vocês estão aqui porque sabem em quem acreditam: é Deus. É por causa de Jesus, que morreu por vocês, por mim e ressuscitou. É por Ele, com Ele e n’Ele que nós participamos.

Então, não se afastem da Igreja. Vocês estão por causa de Cristo. Quando a fumaça de Satanás chega, nós precisamos vencer com fé. Os papas, no magistério, sempre nos pediram isso. Então, vamos ser firmes. Não se afastem. Eu peço em nome de Jesus.

E não se afastem da Catedral. Vocês sempre foram participativos. Continuem a participar, a colaborar. O dízimo é necessário. Nós ainda não temos a Catedral do bispo dedicada, e estamos em obras. Vocês têm colaborado muito. Está ficando linda a Catedral, porque Deus merece, é a beleza litúrgica.

Então, continuem a ajudar, a participar das pastorais e dos movimentos, porque nós passamos, mas Deus permanece. E vocês permanecerão com este Deus até o final. Vocês moram aqui e têm uma afinidade linda com esta construção, que é a Igreja-mãe da Diocese. Não abandonem a Igreja-mãe da Diocese. Continuem firmes.

O padre permanecerá afastado porque nós precisamos de uma investigação prévia para apurar os fatos, em nome da justiça e da verdade. É o que a Igreja sempre prezou e preza. A Igreja não acoberta as coisas. Se no passado não havia saídas que poderiam acontecer algo parecido, nunca fez. Não é hoje que ela fará.

Ajudem a dizer: a Igreja prega e busca, nos limites humanos, pregar e viver justiça e verdade.

Permaneçamos em oração e em presença no amor de Deus. Sejamos cristãos de uma Igreja viva. Olhem o Evangelho de hoje: somos transfigurados. Vamos continuar mostrando a beleza da nossa Igreja transfigurada.

E não sou eu, não é você. É Jesus que nos deixa reluzir o que é d’Ele, e é d’Ele a missão. E, no final das contas, eu não prestarei contas do pecado do outro. Eu terei que prestar contas a Deus dos meus pecados.

E, como lembra a Madre Teresa de Calcutá, serei só eu e Deus. E eu espero a misericórdia divina, como vocês.”

Investigação policial

A Polícia Civil do Paraná confirmou, nesta segunda-feira (2), que instaurou inquérito ainda em 2025 para investigar a suposta prática do crime de extorsão relacionada ao caso.

No dia 11 de fevereiro, foram cumpridos mandados de busca e apreensão autorizados pelo Poder Judiciário. Celulares e computadores foram recolhidos e encaminhados à Polícia Científica para perícia técnica.

Segundo nota oficial da corporação, três pessoas são investigadas. Os nomes não foram divulgados. As diligências seguem em andamento.

A identidade da mulher envolvida no caso também não foi relevada.

Repercussão e posicionamento do padre

O caso ganhou ampla repercussão após a circulação, nas redes sociais, de prints de supostas mensagens íntimas atribuídas ao sacerdote e a uma fiel da comunidade, cuja identidade também não foi divulgada.

O padre nega as acusações.

Em documento que passou a circular no dia 27 de fevereiro de 2026, o padre afirma ser vítima de tentativa de chantagem financeira e sustenta que denunciou o caso às autoridades. Procurado pela reportagem, declarou apenas: “remeto-me à nota já divulgada”.

Manifestação da OAB

Com a repercussão do caso e a menção pública a advogados da subseção de Guarapuava nos desdobramentos relacionados à suposta extorsão, sem divulgação dos nomes, a OAB Subseção Guarapuava divulgou nota oficial a pedido da reportagem.

Na manifestação, a entidade afirmou prestar apoio institucional aos profissionais citados e reforçou o compromisso da Ordem com a defesa das prerrogativas da advocacia, o devido processo legal e os princípios constitucionais da ampla defesa e do contraditório.

A OAB também destacou que o Conselho Disciplinar da subseção atua na preservação da ética profissional e que eventual falta disciplinar comprovada poderá resultar na aplicação das sanções previstas no Código de Ética da instituição.

Nota na íntegra:

“Ante os fatos noticiados pela imprensa local, envolvendo um pároco e advogados desta Subseção de Guarapuava, a OAB expressa, de público, o seu apoio institucional aos colegas, reafirmando o compromisso de inibir a prática de quaisquer atos que importem em violação das suas prerrogativas profissionais.

Por outro lado, ressalta que a sua missão é zelar pela observância das garantias constitucionais consubstanciadas no devido processo legal e nos princípios da ampla defesa e contraditório.

Por fim, registre-se que esta Subseção, por seu Conselho Disciplinar, atua diretamente na preservação da ética profissional, de modo que eventual e comprovada falta disciplinar culminará na adoção das sanções de que trata o Código de Ética e disciplina da Ordem dos Advogados do Brasil.”

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