Em Guarapuava, falta de caminhoneiros reflete crise nacional no transporte de cargas

Profissão perde espaço entre os jovens, empresas enfrentam dificuldade para contratar e motoristas relatam rotina cada vez mais desgastante.
Montagem mostra a caminhoneira Raschida de Lima Hobi e o caminhoneiro Márcio José Barbosa ao lado de caminhões durante reportagem sobre a falta de motoristas no transporte de cargas em Guarapuava. Montagem. Fotos: Atento News
Montagem mostra a caminhoneira Raschida de Lima Hobi e o caminhoneiro Márcio José Barbosa ao lado de caminhões durante reportagem sobre a falta de motoristas no transporte de cargas em Guarapuava. Montagem. Fotos: Atento News

Durante décadas, a profissão de caminhoneiro fez parte da história de muitas famílias brasileiras. Em várias regiões do país, filhos acompanhavam os pais nas viagens e acabavam seguindo o mesmo caminho nas estradas.

Hoje, porém, a realidade é diferente.

Transportadoras enfrentam dificuldade para contratar motoristas, caminhões ficam parados por falta de profissionais e muitos caminhoneiros já não incentivam os filhos a seguirem na profissão. Em Guarapuava, o cenário acompanha uma crise que atinge o transporte rodoviário em todo o país.

Foto: Cleo Ferreira/ Atento News

Uma pesquisa da NTC&Logística, divulgada em março, aponta que 88% das transportadoras brasileiras enfrentam dificuldades para contratar caminhoneiros e motoristas agregados. Segundo o levantamento, a média é de oito caminhões sem operação por empresa por falta de motoristas.

Além disso, dados da Confederação Nacional dos Transportadores Autônomos mostram que o número de motoristas habilitados para veículos pesados caiu de cerca de 3,5 milhões, em 2014, para aproximadamente 1,3 milhão dez anos depois, uma redução superior a 60%.

A idade média dos caminhoneiros também aumentou e já chega a 46 anos.

Desmotivação

Márcio José Barbosa tem 47 anos e trabalha como caminhoneiro desde os 18. Filho de caminhoneiro, entrou na profissão por influência do pai. Há cinco anos, comprou o próprio caminhão para atuar como prestador de serviços.

Foto: William Batista/ Atento News

Mas o que antes parecia um investimento promissor hoje virou motivo de desânimo.

“Aquela época era boa, né? Nossa, aquela época tinha bastante trabalho, bastante frete e hoje em dia não. Hoje em dia tá complicado”, relata.

Márcio trabalha principalmente em rotas pelo Paraná, entre cidades como Guarapuava, Paranaguá e Ponta Grossa. Segundo ele, a rotina ficou mais difícil nos últimos anos.

“Eu fui quinta-feira na Agrária em Guarapuava aqui pra carregar e consegui carregar ontem na Agrária. Aí tá bem complicado, não tá fácil de trabalhar.”

Além da demora para carregamentos e da dificuldade financeira, ele também critica a falta de estrutura em algumas empresas.

“Você entra dentro das empresas, você não pode abrir uma caixa de boia, não te oferece uma refeição. Nada. É complicado.”

O desânimo é tão grande que ele não incentiva os filhos a seguirem a mesma profissão.

“Meu filho, graças a Deus, tá se formando esse ano agrônomo. Incentivo pra ser caminhoneiro? Não.”

Jovens já não querem seguir na profissão

A dificuldade de renovação da categoria é apontada como um dos maiores desafios do setor.

Em uma transportadora de Guarapuava, André Machado acompanha diariamente essa realidade. Ele trabalha com recrutamento e contratação de caminhoneiros em uma empresa que atua com transporte de cargas como grãos, bobinas de papel e celulose.

Entrevista com o recrutador André Machado. Foto: Cleo Ferreira Atento News

Dependendo da demanda e da rotatividade, chegam a ser necessárias até 20 contratações por mês.

“Hoje, em média, eu contrato cerca de vinte motoristas por mês. De dez a vinte motoristas por mês, vai depender da demanda, vai depender da necessidade, vai depender da rotatividade do motorista.”

Segundo André, a profissão perdeu força entre os mais jovens e já não existe mais o incentivo familiar que existia antigamente.

“Hoje o pai não incentiva mais o filho ser motorista. Ele incentiva ele se formar, ter outra profissão que não seja motorista.”

Ele afirma que muitos profissionais entram nas empresas, permanecem poucos meses e acabam saindo em busca de outras oportunidades, aumentando a rotatividade no setor.

“Antes você tinha uma fila de motorista. O motorista queria trabalhar na empresa, queria ser motorista, mas ele não conseguia entrar porque o outro não queria sair.”

Salário e rotina pesam na decisão

A questão financeira também influencia diretamente na falta de interesse pela profissão.

Na transportadora onde André trabalha, o salário-base do carreteiro é de R$ 3.100, conforme a convenção trabalhista do Paraná. Além disso, há diárias entre R$ 86 e R$ 100 durante as viagens.

No total, a renda mensal fica em torno de R$ 5 mil, podendo aumentar conforme metas e prêmios por produtividade e economia de diesel.

Mesmo assim, André afirma que a rotina pesada faz muitos profissionais desistirem.

“Quanto menos ele viaja, menos às vezes ele vai acabar faturando. E isso às vezes chega no final do mês. Ele vê que não foi aquilo que ele queria ganhar.”

Segundo ele, as mudanças trazidas pela Lei do Motorista alteraram a forma de remuneração e também impactaram a dinâmica do setor.

“Antes da lei do motorista, a gente podia pagar o motorista comissionado. Isso que fazia ele ganhar mais.”

Mais de 50 anos na estrada

Entre os caminhoneiros que seguem trabalhando está Élio Coradassi, motorista autônomo com mais de 50 anos de profissão.

Assim como muitos caminhoneiros da geração dele, entrou na atividade influenciado pelo pai.

Seu Élio durante entrevista. Foto: Cleo Ferreira/ Atento News

“Meu pai já mexia com caminhão, sabe?”

Élio afirma que o cenário mudou muito ao longo das décadas.

“Naquele tempo, a turma fala que era mais difícil, mas eu acho que era melhor que hoje.”

Mesmo após tantos anos na estrada, nenhum dos filhos seguiu na profissão.

“Filho caminhoneiro? Ninguém. Graças a Deus.”

Transporte de cargas perigosas enfrenta dificuldade ainda maior

A dificuldade para contratar motoristas também atinge outros segmentos do transporte.

No caso das cargas perigosas, o desafio é ainda maior. Além da habilitação específica, os profissionais precisam passar por treinamentos constantes e seguir regras rígidas de segurança.

A diretora institucional da Associação Brasileira de Transporte e Logística de Produtos Perigosos, Gislaine Zorzin, afirma que o transporte desse tipo de carga exige motoristas mais especializados e caminhões com tecnologias de monitoramento.

Foto: Reprodução/ Em entrevista à reportagem.

“O caminhão que transporta uma carga perigosa, além de ter um motorista mais especializado, ele também tem uma tecnologia diferenciada.”

Segundo ela, muitos veículos contam com câmeras de fadiga e sistemas que monitoram o motorista durante toda a viagem.

“Ele fica filmando o rosto do motorista. O motorista começa a bocejar, a olhar pro lado, ele vai receber um aviso sonoro dentro do caminhão.”

Mesmo reconhecendo a importância da tecnologia para segurança, Gislaine afirma que a concorrência com os aplicativos também pesa na escolha dos profissionais.

“Você tem os aplicativos que você tem uma liberdade total, que você começa a trabalhar a hora que você quer. Você para de trabalhar a hora que você quer.”

Custos também aumentaram

Além da dificuldade para contratar motoristas, o setor enfrenta aumento nos custos operacionais.

Segundo a NTC&Logística, os motoristas representam 19,5% da estrutura de custos do transporte rodoviário, atrás apenas das despesas com combustível e veículos.

Nos últimos 24 meses, o custo com mão de obra subiu mais de 13%.

Mulheres também enfrentam desafios nas estradas

Mesmo diante das dificuldades, ainda existem profissionais que seguem na estrada por escolha e paixão pela profissão.

É o caso de Raschida de Lima Hobi, caminhoneira há nove anos. Há três, ela começou a fazer viagens mais longas para diferentes regiões do país.

Foto: Cleo Ferreira/ Atento News

“Eu digo que eu tô por amor, porque eu amo caminhão, amo a estrada.”

Antes, ela rodava principalmente pelo Paraná e Santa Catarina. Hoje enfrenta viagens mais longas e uma rotina ainda mais desgastante.

Além das dificuldades comuns da profissão, Raschida também relata os desafios enfrentados pelas mulheres nas estradas.

Foto: Cleo Ferreira/ Atento News

“Às vezes é banheiro precário. Quando tem banheiro, a gente usa o banheiro dos homens.”

Ela também afirma que o preconceito ainda faz parte do dia a dia.

“A mulher não vai ser capaz. A mulher não consegue. A mulher não manobra.”

Mesmo assim, ela garante que pretende continuar.

“A gente tem que botar a mão na massa e deixar o que falam entrar aqui, sair aqui. Não dá pra dar bola, senão a gente desanima da estrada.”

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