Família registra boletim de ocorrência e pede investigação sobre morte de recém-nascida após parto em hospital de Guarapuava

Mãe procurou o Hospital Santa Tereza após entrar em trabalho de parto. Bebê nasceu na madrugada do dia 2 de junho, foi encaminhada para a UTI Neonatal e morreu horas depois. Família questiona o atendimento recebido e pede apuração do caso.
Berço e objetos preparados pela família para a chegada da recém-nascida Alice Fabre em Guarapuava. Foto: Cleo Ferreira/ Atento News
Berço e objetos preparados pela família para a chegada da recém-nascida Alice Fabre em Guarapuava. Foto: Cleo Ferreira/ Atento News

Uma família de Guarapuava busca respostas para a morte da recém-nascida Alice Fabre, ocorrida horas após o nascimento no Hospital Santa Tereza. A bebê nasceu na madrugada do dia 2 de junho, foi encaminhada para a UTI Neonatal e morreu no mesmo dia. Quase duas semanas depois, nesta segunda-feira (15), os pais registraram um boletim de ocorrência pedindo a apuração das circunstâncias que envolveram o atendimento prestado à mãe durante o trabalho de parto e os procedimentos adotados após o nascimento da criança.

Moradora do bairro Boqueirão, a professora Jéssica Fabre, de 31 anos, afirma que a gestação transcorreu normalmente e sem qualquer complicação. Segundo a família, todos os exames realizados durante o pré-natal apresentavam resultados dentro da normalidade e não havia indicativos de problemas de saúde com a mãe ou com a bebê.

No dia 1º de junho, com 39 semanas e um dia de gestação, Jéssica percebeu sangramento e sinais de que o trabalho de parto havia começado. Como realizava o acompanhamento pela Unidade Básica de Saúde do Boqueirão, foi orientada a procurar o Hospital Santa Tereza, unidade de referência para o atendimento.

Segundo a família, ela chegou ao hospital por volta das 10 horas da manhã.

Horas de espera, segundo a família

De acordo com o relato da mãe, ela foi encaminhada para a maternidade e permaneceu em uma sala com outras gestantes. Jéssica afirma que, apesar da evolução das dores e dos sintomas do trabalho de parto, permaneceu durante várias horas sem atendimento médico.

“Quando deu meio-dia, eu já comecei a ter aquelas dores fortes, entrando em trabalho de parto, e o médico ainda não tinha me atendido. As enfermeiras vinham me ver, né, só pra ver se eu tava com dor, mas não me examinaram em nada.”

A professora relata que chegou a passar mal e vomitar enquanto aguardava atendimento.

Outro ponto destacado pela família é que, enquanto não havia internamento, o marido, Marcelo da Rosa, e a doula contratada para acompanhar o parto não puderam permanecer ao lado dela.

Segundo Jéssica, o internamento só ocorreu no início da noite.

“Liberaram meu internamento, era seis e pouquinho (18h), mas foi a enfermeira. O meu esposo foi lá. A enfermeira que fez meu internamento e deu os papéis pra ele fazer o internamento. Não foi o doutor. Então, das dez horas da manhã até cinco horas da tarde, seis e pouquinho, eu não tive consulta médica.”

Outro ponto citado pela família envolve a demora para a formalização do internamento. Segundo Jéssica, durante o período em que aguardava atendimento, ela foi informada por profissionais da equipe de que o médico responsável estaria em período de descanso após um plantão prolongado. A família afirma que essa situação teria contribuído para a demora no atendimento médico e para a liberação do internamento, que, segundo o relato, ocorreu apenas no início da noite.

Questionamentos sobre a condução do parto

A família também questiona a condução da via de parto. Jéssica afirma que, cerca de duas semanas antes do nascimento, teria sido informada de que poderia agendar uma cesariana após completar 39 semanas de gestação. Segundo ela, ao chegar ao hospital, recebeu a orientação de que o parto normal deveria ser tentado primeiro.

Após o internamento, já acompanhada pelo marido e pela doula, o trabalho de parto seguiu evoluindo. Por volta das 22h30, a bolsa rompeu. Segundo a mãe, o líquido apresentava coloração amarelada e esverdeada.

“Quando foi dez horas (22h), dez e meia, estourou a minha bolsa e, quando a bolsa estourou, ela já tava amarela, quase verde, de mecônio.”

A família afirma que só posteriormente soube que aquela alteração estava relacionada à presença de mecônio. Jéssica relata que o médico avaliou a situação, constatou dilatação total e orientou que ela continuasse tentando o parto normal.

“Nisso ele viu que ela não vinha. Ele virou as costas e saiu. E lá fiquei eu tentando.”

Segundo os familiares, mesmo após pedidos para que uma cesariana fosse realizada, o procedimento só foi definido horas depois. A família afirma que, naquele momento, também recebeu a informação de que o médico estaria em descanso.

Nascimento de Alice

A cesariana ocorreu durante a madrugada do dia 2 de junho. Alice nasceu às 2h25 e pesava 4,040 quilos. A mãe afirma que a bebê nasceu viva, mas não chorou. “Quando eles estavam olhando o que estava acontecendo, falaram que ela saiu, né? Mas eu não escutei o choro dela. Eu escutei só uns resmungos, assim.”

A família também afirma que não havia pediatra presente no momento do nascimento. “Depois de sete minutos, chegaram dois pediatras para tentar fazer ela reanimar. Ela nasceu bem molinha.”

Após o parto, a recém-nascida foi encaminhada para a UTI Neonatal. Enquanto isso, o pai aguardava informações sobre o estado de saúde da filha. “Eu fiquei lá mais ou menos uma hora e meia, quase duas horas esperando alguma resposta. E essa resposta demorou a chegar.”

Morte horas após o nascimento

Segundo a família, o quadro clínico da bebê se agravou nas horas seguintes. Jéssica conta que só conseguiu ver a filha no dia seguinte ao nascimento.

Na UTI, segundo ela, recebeu a informação de que a situação era extremamente grave. “Quando eles falaram assim: ‘Alice, é só um milagre. Ela, a qualquer momento, vai entrar em óbito porque ela engoliu muito mecônio’.”

A mãe relembra o encontro com a filha. “Quando eu entrei lá, coloquei a mãozinha nela. Ela tava respirando bem rapidinho. A gente começou a orar e, quando a gente orava, os batimentos dela começavam a subir. Mas eu sabia que o meu sonho tava indo embora.”

Alice morreu às 15h09 do dia 2 de junho. A certidão de óbito aponta como causas da morte insuficiência respiratória aguda, broncopneumonia e síndrome de aspiração de mecônio.

Problemas durante o velório

Além dos questionamentos sobre o atendimento hospitalar, a família afirma que enfrentou outro problema no momento do velório de Alice. Segundo o avô da bebê, Amauri Pereira, a cerimônia seria realizada na Capela Mortuária do bairro Batel, mas, ao chegar ao local, os familiares encontraram a estrutura sem energia elétrica, após o furto dos cabos de luz. Diante da situação, o velório precisou ser transferido para a Capela Santa Cruz. Amauri também pediu mais atenção do poder público à manutenção desses espaços, especialmente em momentos de luto das famílias.

Quarto permanece montado

À reportagem, a família mostrou o quarto preparado para receber Alice.

O espaço permanece montado com berço, roupas, objetos de decoração e itens personalizados com o nome da criança, comprados ao longo da gestação.

Boletim de ocorrência e investigação

A família registrou um boletim de ocorrência na segunda-feira (15), quase duas semanas após a morte da bebê. Segundo os pais, a decisão de procurar a Polícia Civil ocorreu após os primeiros dias de luto. Até então, eles não haviam formalizado denúncia nem procurado o Ministério Público.

Amauri, pai de Jéssica, afirma que a família espera respostas sobre o atendimento prestado e cobra providências para que situações semelhantes não se repitam. “Nós queremos justiça pela Alice. Quantas famílias ainda vão sofrer e chorar por situações como essa? O que a gente busca agora é que os fatos sejam esclarecidos.”

Em nota, a Polícia Civil do Paraná informou que está realizando a análise preliminar da ocorrência registrada nesta segunda-feira (15), em Guarapuava. Segundo a corporação, caso sejam identificados indícios de crime, será instaurado inquérito policial para apurar os fatos e esclarecer o caso.

O que diz o hospital

A reportagem procurou a direção do Hospital Santa Tereza.

Em conversa com a reportagem, a instituição informou que não se manifesta publicamente sobre casos envolvendo pacientes e que eventuais esclarecimentos serão prestados apenas por meio dos canais judiciais competentes.

O hospital informou ainda que o prontuário médico poderá ser disponibilizado à família mediante solicitação formal.

  • Por William Batista

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