Jogar lixo nas ruas, nos bueiros ou perto dos rios pode parecer um problema distante quando não está chovendo. Mas, durante um temporal, esses resíduos podem impedir a passagem da água e contribuir para os alagamentos. É justamente essa situação que preocupa a Prefeitura de Guarapuava, que voltou a pedir a colaboração dos moradores nesta segunda-feira (26), ao apresentar os resultados dos trabalhos preventivos realizados no município. Nos últimos 10 meses, foram mais de 200 intervenções, entre limpeza de galerias, manutenção da drenagem e desassoreamento de rios e córregos. Segundo a administração municipal, os serviços ajudaram a evitar alagamentos em locais que costumavam enfrentar problemas sempre que chovia forte.
O assunto ganhou ainda mais importância depois das chuvas que atingiram Guarapuava no fim de semana. Embora diferentes regiões tenham registrado transtornos, a Secretaria Municipal de Viação, Obras e Serviços Urbanos afirma que alguns pontos historicamente afetados não voltaram a alagar.
A secretária Tatiane Nezi citou a Vila Bela, o Concórdia e a região central como exemplos de locais onde os trabalhos realizados nos últimos meses apresentaram resultados. Segundo ela, a diferença ficou evidente durante o temporal. Em pontos que antes registravam acúmulo de água com frequência, as intervenções permitiram um escoamento melhor.
Isso não significa, porém, que os problemas estejam resolvidos em toda a cidade. A própria secretária reconhece que Guarapuava ainda tem muito trabalho pela frente, principalmente por causa da quantidade de rios e córregos que atravessam a área urbana.
O lixo que vai parar nas galerias
Segundo a secretária, as equipes encontram resíduos domésticos, terra e até restos de materiais de construção durante os trabalhos de limpeza. Parte da terra chega às galerias com a água da chuva, mas muitos dos outros materiais são descartados de maneira inadequada.
“Isso é o que nós mais encontramos nas galerias: é lixo, é muito lixo”, afirmou.
O problema é que essas estruturas são responsáveis por receber e conduzir a água das chuvas. Quando ficam obstruídas, a água encontra dificuldade para escoar e pode se acumular nas ruas, especialmente durante temporais.
Tatiane também chamou a atenção das empresas que realizam obras no município. Segundo ela, restos de construção civil estão entre os materiais encontrados pelas equipes, o que reforça a necessidade de cuidado com o destino desses resíduos.
A orientação vale também para os moradores: não jogar lixo nas ruas, evitar o descarte de materiais em terrenos e áreas próximas aos rios e utilizar os meios adequados para a destinação dos resíduos.
“Eu peço encarecidamente que a população trabalhe junto conosco. Nós precisamos dessa parceria para que a população ganhe”, disse a secretária.
A preocupação da Prefeitura é que, mesmo depois da limpeza, os locais voltem a receber lixo e apresentem novas obstruções. Por isso, a administração municipal defende que a manutenção feita pelas equipes seja acompanhada de uma mudança de comportamento da população.
Mais de 200 intervenções e até R$ 15 milhões investidos
Os trabalhos de prevenção foram intensificados ao longo dos últimos 10 meses. Nesse período, a Secretaria de Obras realizou serviços de diferentes tamanhos, desde limpezas pontuais até intervenções mais complexas na rede de drenagem.
De acordo com Tatiane Nezi, foram mais de 200 intervenções em diferentes regiões do município.
A secretária estimou que os investimentos estejam entre R$ 10 milhões e R$ 15 milhões. Apesar da quantidade de serviços, ela explicou que ainda não foi possível atender toda a rede de galerias da cidade. A estima é que aproximadamente 30% das galerias receberam algum tipo de intervenção nesse período.
Tatiane afirmou que a manutenção continuará sendo necessária, tanto para melhorar os pontos que apresentam problemas quanto para evitar que locais já atendidos voltem a registrar obstruções.
Por que algumas regiões continuam alagando?
Guarapuava tem características que tornam o controle dos alagamentos mais difícil. O município possui a maior extensão territorial do Paraná e, somente na área urbana, pelo menos 50 riachos e cursos d’água atravessam diferentes bairros. Ao longo do crescimento da cidade, ruas, imóveis e estruturas de drenagem foram construídos sobre ou nas proximidades desses cursos d’água.
A secretária explicou que muitas galerias foram instaladas em uma época em que os projetos não consideravam volumes de chuva tão elevados quanto os utilizados atualmente no planejamento das obras. Hoje, segundo ela, os projetos municipais consideram chuvas com período de retorno de 100 anos. Isso não significa que uma chuva desse tipo aconteça apenas uma vez a cada século, mas que os cálculos levam em conta eventos de grande intensidade.
O problema é que parte da estrutura antiga não tem capacidade suficiente para receber e conduzir toda a água em situações extremas. Além disso, existe uma diferença importante entre o alagamento causado por uma galeria entupida e aquele provocado pelo transbordamento de um rio.
No primeiro caso, a limpeza e a manutenção podem melhorar a passagem da água. No segundo, quando o rio sobe além de suas margens, residências construídas nas proximidades podem ser atingidas mesmo que a drenagem esteja funcionando. Segundo a secretária, foi justamente o transbordamento de cursos d’água que provocou parte dos problemas registrados no fim de semana.
Ela explicou que os serviços de desassoreamento também precisam seguir cuidados ambientais, já que muitos trechos estão em áreas protegidas. Por isso, as intervenções são feitas em conjunto com o setor de Meio Ambiente.
Centro precisaria de uma obra estimada em R$ 70 milhões
Outro ponto abordado pela secretária foi a situação da região central de Guarapuava, especialmente nas proximidades da Praça Cleve. O local é conhecido pelos problemas de acúmulo de água durante chuvas fortes e já recebeu serviços de limpeza das galerias.
Tatiane afirmou que essas intervenções ajudaram a melhorar a situação, mas explicou que uma solução mais ampla exigiria uma obra de aproximadamente R$ 70 milhões. O valor, segundo ela, não seria destinado apenas à Praça Cleve. A proposta envolveria a drenagem de toda a região central e de parte do bairro dos Estados.
A secretária explicou que não basta instalar estruturas para captar a água da chuva. Também é necessário garantir que essa água tenha por onde seguir, até chegar a um local adequado de escoamento.
Por isso, o investimento estimado inclui tanto a captação quanto o encaminhamento da água ao longo de todo o sistema.
Tatiane também esclareceu a diferença em relação a um projeto de R$ 20 milhões mencionado anteriormente. Segundo ela, esse valor estaria relacionado a uma intervenção mais localizada na Praça Cleve, enquanto os R$ 70 milhões corresponderiam a uma solução mais abrangente.
A estimativa apresentada não representa o anúncio de uma obra contratada. Trata-se, segundo a secretária, do valor aproximado necessário para enfrentar o problema de maneira mais ampla.
Famílias precisaram deixar suas casas durante as chuvas
Mesmo com os resultados apontados pela Secretaria de Obras, o temporal do fim de semana provocou transtornos e exigiu a mobilização de equipes de emergência em Guarapuava.
No balanço divulgado no domingo (25), o prefeito Denilson Baitala informou que 39 famílias foram retiradas de áreas de risco.
Entre os atendimentos, um idoso acamado precisou ser resgatado com o apoio de uma ambulância. As equipes também distribuíram lonas, colchões, cobertores e roupas às pessoas atingidas. Parte das famílias recebeu acolhimento no Albergue Municipal.
Os trabalhos envolveram a Defesa Civil, o Corpo de Bombeiros e diferentes secretarias da Prefeitura, com atendimentos que se estenderam pela madrugada.
O agente da Defesa Civil Municipal Moisés Kolody também participou das orientações à população, reforçando a importância de acompanhar os alertas oficiais, evitar situações de risco e procurar locais seguros quando houver possibilidade de alagamento.
Segundo a administração municipal, as equipes permanecem atentas às condições do tempo e à necessidade de novos atendimentos.
Prevenção também depende dos moradores
A mensagem reforçada pela Prefeitura é que a limpeza das galerias e as obras de drenagem precisam caminhar junto com a conscientização ambiental.
A administração municipal afirma que os resultados observados em pontos da Vila Bela, do Concórdia e do Centro mostram a importância da manutenção preventiva. Ao mesmo tempo, reconhece que a estrutura da cidade, o transbordamento dos rios e a quantidade de galerias ainda não atendidas exigem continuidade dos investimentos.
Para Tatiane Nezi, a colaboração dos moradores pode fazer diferença especialmente em um problema que aparece repetidamente durante os serviços: o lixo descartado em locais inadequados.
Evitar que resíduos cheguem aos bueiros, galerias e rios não elimina todos os riscos de alagamento, mas ajuda a manter o funcionamento das estruturas existentes.
Em situações de alagamento ou risco, a população pode acionar a Defesa Civil de Guarapuava pelo telefone (42) 98427-0618. Também estão disponíveis os números 199, da Defesa Civil, e 193, do Corpo de Bombeiros.